Avançar para o conteúdo principal

Apoiar alguém com uma doença mental - Um artigo dirigido a cuidadores informais

 Apoiar alguém com uma doença mental - Um artigo dirigido a cuidadores informais


As pessoas com doença mental nem sempre precisam de ter um cuidador e as que têm, poderão não ter um cuidador de forma permanente. Muitas conseguem viver de forma autónoma, estudar, trabalhar e tomar decisões sobre a sua própria vida, especialmente quando têm acompanhamento adequado e apoio pontual. 

A ideia de que uma doença mental implica incapacidade total é um estigma que não corresponde à realidade. Cada pessoa é diferente, e o nível de apoio necessário varia consoante a doença, a fase em que se encontra e os recursos disponíveis. 

Por isso, mais do que “cuidar”, apoiar significa respeitar a autonomia, promover a independência e estar presente quando for preciso.

Sou cuidador(a). Como posso apoiar alguém com uma doença mental?

Caso seja o/a cuidador/a, cuidar de alguém com doença mental pode afetar profundamente a sua vida. É normal sentir emoções como: medo, confusão, culpa, frustração, impotência, tristeza ou luto, e raiva. Também é comum existir um luto pela relação que existia antes ou pelo futuro que imaginava antes do início dos sintomas da perturbação do ente querido.

Nestes casos, apoiar pode significar: acompanhar a pessoa a consultas; ajudar na gestão da medicação; apoiar nas tarefas diárias; garantir presença e apoio emocional; ajudar a tratar de burocracias ou contactos com serviços públicos, etc. Assim, a relação entre cuidador e pessoa cuidada pode mudar - e isso é normal.

Apoiar ou cuidar de alguém com uma doença mental pode ser exigente a nível emocional, físico e social. 

Importante frisar que em Portugal, existem apoios legais, sociais e de saúde. Apesar de não existir um programa único e integrado de apoio contínuo ao cuidador de pessoas com doença mental, o apoio é feito sobretudo através de: acompanhamento no SNS (Serviço Nacional de Saúde), serviços da Segurança Social e pelo enquadramento legal como Cuidador Informal.  O Estatuto do Cuidador Informal prevê acesso à informação e orientação, mediante avaliação social.

O que preciso saber sobre a doença mental da pessoa a meu encargo?

Cada doença mental é diferente. Em Portugal, o acompanhamento clínico é feito sobretudo no SNS, através de: médico de família, consultas de psiquiatria e consultas de psicologia (quando disponíveis). Como cuidador é importante tentar informar-se junto destes profissionais ou de fontes de informação oficiais sobre: sintomas mais comuns, tratamentos, grupos de suporte disponíveis e efeitos secundários da medicação.

Como falar com alguém de quem gosto sobre a sua doença mental?

Não existem fórmulas perfeitas, mas algumas atitudes ajudam:

  • Escolha um momento calmo e um espaço seguro;

  • Escute sem julgar;

  • Pergunte se a pessoa quer ajuda ou apenas ser ouvida;

  • Reforce que ela não é um fardo;

  • Valide os seus sentimentos (“Percebo que isto seja difícil”).

É importante lembrar que a pessoa não é a sua doença. Incentivar interesses, rotinas simples e ligação social pode ajudar no seu ajustamento e/ou recuperação. 

Como posso ajudar de forma prática?

Apoio no dia a dia: Ajude com refeições, compras e organização da casa; acompanhe a pessoa a consultas, se ela concordar; ajude a manter uma rotina simples.

Apoio clínico: Em Portugal, o tratamento da doença mental é feito no SNS ou no setor privado. Pode apoiar a pessoa ao: ajudar a marcar consultas; acompanhar em consultas (com consentimento); contactar o médico de família em situações de agravamento. Neste âmbito é importante manter uma comunicação regular com a equipa de saúde do seu ente querido.

O que devo fazer em situação de crise?

Em caso de crise psicológica grave:

  • Contactar o SNS 24 – 808 24 24 24 e dirigir-se ao serviço de urgência (se recomendado)

  • Em risco imediato, ligar 112

  • Linha de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico - 1411

A equipa de saúde poderá, em conjunto com o utente, elaborar planos de crise personalizados, sendo algo que tanto o cuidador como o utente devem ter em sua posse.

Como cuidar de mim enquanto cuidador?

Cuidar de alguém com doença mental aumenta o risco de exaustão emocional. Assim, torna-se essencial: investir em rotinas de sono que garantam o descanso necessário; investir na sua própria rede de suporte/vida social; definir limites claros e concisos para este papel; pedir ajuda quando necessário. 

Não existe um apoio psicológico automático e gratuito garantido para cuidadores, mas o Estatuto do Cuidador Informal prevê apoio psicossocial, dependendo da avaliação dos serviços.

O Estatuto do Cuidador Informal é reconhecido por lei. Este é o reconhecimento oficial de quem presta cuidados regulares e não remunerados a uma pessoa dependente. Este estatuto permite o reconhecimento legal de cuidador, acesso à informação e orientação, possibilidade de apoio psicossocial e articulação com serviços de saúde e sociais. Cada caso é avaliado pela Segurança Social.

Onde pedir ajuda e informação?

  • Segurança Social – atendimento presencial ou linha 300 502 502

  • SNS 24 – 808 24 24 24

  • Serviços de Ação Social do concelho

  • Loja do Cidadão

  • Médico de família

Referências



Dra. Mariana Correia

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Solidão vs. Solitude - do Sofrimento ao Autoconhecimento

  Todos nós, em algum momento da vida, podemos já ter tido períodos em que nos encontrámos sozinhos. Talvez estivéssemos longe de pessoas com quem costumamos contar para nos ajudarem; ou pode ser que, mesmo com pessoas por perto, sentíssemos que estávamos por nossa conta; ou que, mesmo que precisássemos, não estaria lá ninguém para nós; ou ainda que não seríamos a escolha de ninguém. Estarmos sozinhos é diferente de nos sentirmos sozinhos – a Solidão é, assim, um estado emocional que pode surgir mesmo quando estamos rodeados de pessoas, na medida em que, na sua essência, reside na falta de vínculos seguros e no sentimento de não pertença. É frequentemente vista como uma experiência negativa, sendo associada à sensação de se estar isolado, de não se ser compreendido ou de se sentir desligado (ou emocionalmente distante) dos outros. Por consequência, a solidão poderá potenciar o desenvolvimento de sintomatologia depressiva e ansiedade (Bravata et al., 2024; Liu et al., 2025) . Senti...

Inteligência Emocional na Docência: Estratégias para a promoção da Saúde Mental no contexto escolar

  A docência é, indiscutivelmente, uma profissão de elevada exigência emocional. Todos os dias, Professores e Educadores lidam com situações que exigem uma capacidade empática, de autocontrolo, resiliência e assertividade. Ser professor implica mais do que o domínio dos conteúdos . A prática docente é pautada por diversos fatores geradores de stress e sobrecarga, tais como: ⮚        Gestão de comportamentos desafiantes em sala de aula; ⮚        Pressão de familiares e sociais; ⮚        Falta de valorização profissional; ⮚        Conflitos com colegas ou direção; ⮚        Excesso de tarefas administrativas; A ausência de estratégias adequadas de regulação emocional pode levar a um estado de exaustão , caracterizado por sintomas como cansaço extremo, irritabilidade, isolamento social e sentimentos de inutilidade. Neste co...

Bonecas Reborn e a Dor Invisível – o peso de um colo vazio

    As bonecas  reborn , conhecidas pelo seu realismo, surgiram nos Estados Unidos entre o final dos anos 80 e início dos anos 90. Inicialmente, eram resultado do trabalho de artistas que transformavam bonecas convencionais em réplicas muito fiéis de recém-nascidos. Cada detalhe era cuidadosamente trabalhado: desde a pintura da pele, ao cabelo inserido fio a fio, até ao peso e textura corporal, conferindo-lhes uma aparência notavelmente próxima da realidade. O que começou como um passatempo artístico para colecionadores transformou-se num fenómeno com impacto emocional. Com o passar do tempo, estas bonecas começaram a ser usadas em contextos terapêuticos. Em lares de idosos, por exemplo, tornaram-se uma estratégia não farmacológica em situações de demência. A chamada  doll therapy  tem vindo a ser estudada como uma abordagem eficaz na diminuição de sintomas como agitação, ansiedade, agressividade e isolamento. Em alguns casos, verificaram-se melhorias no humor, ...