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Autocrítica, a Voz (in)satisfeita

 


Muitas pessoas acreditam que, ao serem muito exigentes e críticas consigo próprias, conseguem manter o foco, evitar erros ou alcançar melhores resultados. No entanto, quando a autocrítica se torna constante e demasiado rígida, deixa de funcionar como motivação e começa a gerar ansiedade e mal‑estar. Reconhecer este padrão é um passo importante para desenvolver uma relação mais equilibrada e compassiva consigo mesmo.

O que é a autocrítica

A autocrítica pode ser entendida como um padrão de avaliação interna marcado por julgamentos negativos, exigências elevadas e uma postura interna punitiva (ex., Wakelin, Perman, & Simonds, 2022; Zaccari, et al 2024). Envolve um diálogo interno hostil, no qual a pessoa julga negativamente as próprias ações, pensamentos, emoções e identidade, gerando sentimentos de inadequação e desvalorização pessoal (ex., “não sou suficiente”, “devia ter feito melhor”, “sou uma parva”, etc.,).

Porque é que nos criticamos?

A autocrítica é um padrão de comportamento aprendido no contexto relacional, especialmente em ambientes marcados por controlo excessivo, negligência emocional ou experiências de abuso (ex., Gilbert & Procter, 2006). Existem várias razões pelas quais nos criticamos, entre as quais:

  • Evitar o conflito: uma criança que é frequentemente criticada (ex., “és desarrumada”) pode começar a criticar‑se antes que alguém o faça, tentando antecipar conflitos e sentir‑se mais segura;
  • Melhorar o comportamento ou evitar tornar‑se alguém indesejado: pode recear que, se não for autocrítica, se torne alguém que não quer ser ou que deixe de corresponder às suas próprias expectativas ou às dos outros. Por exemplo, alguém que teme ser visto como preguiçoso pode criticar‑se sempre que descansa (“não fiz o suficiente hoje”).
  • Manter o controlo e garantir desempenho: a crítica pode funcionar como uma tentativa de se manter vigilante, evitar erros e garantir que corresponde às expectativas — suas ou dos outros. Por exemplo, pode repetir para si mesma (“não posso ser irresponsável” ou “não posso falhar”).

Quais as suas implicações?

Embora, em alguns contextos, a autocrítica possa desempenhar uma função reguladora pontual, quando se torna frequente e generalizada este padrão acaba por ser mais prejudicial do que útil.

A autocrítica tem sido associada a várias psicopatologias porque:

  • ativa intensamente o sistema de ameaça;
  • aumenta a vulnerabilidade emocional;
  • dificulta a recuperação após falhas;
  • reforça crenças negativas sobre a identidade;
  • alimenta sentimentos de vergonha e culpa;
  • prejudica a regulação emocional;
  • promove evitamento e medo de errar;

Estes processos contribuem para o desenvolvimento e manutenção de diferentes formas de sofrimento psicológico, incluindo perturbações de ansiedade, de humor, alimentares, obsessivo‑compulsivas, de personalidade, entre outras (ex., Löw, Schauenburg, & Dinger, 2020; Werner, Tibubos, Rohrmann, & Reiss, 2019).

Quando procurar ajuda?

A autocrítica, por ser um hábito e um processo automático, pode ser difícil de identificar e de transformar sozinho. Procurar a ajuda de um profissional de psicologia pode ser fundamental para:

  • reconhecer este padrão com maior clareza;
  • compreender as suas origens;
  • desenvolver estratégias eficazes de regulação emocional;
  • construir uma relação interna mais compassiva e equilibrada; 

Aprender a identificar a autocrítica e substituí‑la por formas mais saudáveis de motivação e autocuidado é, muitas vezes, um dos passos mais importantes no caminho para uma relação mais saudável consigo próprio.

Referências 

Gilbert, P., & Procter, S. (2006). Compassionate mind training for people with high shame and self‐criticism: Overview and pilot study of a group therapy approach. Clinical Psychology & Psychotherapy: An International Journal of Theory & Practice, 13(6), 353-379. https://doi.org/10.1002/cpp.507

Löw, C. A., Schauenburg, H., & Dinger, U. (2020). Self-criticism and psychotherapy outcome: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review, 75, 101808. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2019.101808

Wakelin, K. E., Perman, G., & Simonds, L. M. (2022). Effectiveness of self‐compassion‐related interventions for reducing self‐criticism: A systematic review and meta‐analysis. Clinical Psychology & Psychotherapy, 29(1), 1-25. Doi: 10.1002/cpp.2586.

Werner, A. M., Tibubos, A. N., Rohrmann, S., & Reiss, N. (2019). The clinical trait self-criticism and its relation to psychopathology: A systematic review–Update. Journal of affective disorders, 246, 530-547. https://doi. org/10.1016/j.jad.2018.12.069

Zaccari, V., Fazi, M., Scarci, F., Correr, V., Trani, L., Filomena, M. G., ... & Mancini, F. (2024). Understanding self-criticism: a systematic review of qualitative approaches. Clinical Neuropsychiatry, 21(6), 455-476. doi.org/10.36131/cnfioritieditore20240602

Dra. Jacqueline Ferreira 


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