A irritabilidade é uma experiência emocional comum, mas quando se torna persistente, intensa ou acompanhada por uma sensação constante de estar “em alerta”, pode ser um sinal de sofrimento psicológico ou de uma condição de saúde subjacente. Reconhecer estes sinais é essencial para promover o bem-estar e prevenir o agravamento dos sintomas (APA, 2022; WHO, 2022).
O que é a irritabilidade?
A irritabilidade refere-se a um estado emocional caracterizado por raiva, frustração, impaciência e baixa tolerância ao stress. Pessoas em estados irritáveis tendem a reagir de forma desproporcional a pequenos contratempos e podem parecer constantemente tensas, reagindo de forma brusca ou explosiva (Stringaris, 2011; Brotman et al., 2017). Do ponto de vista clínico, a irritabilidade não é um diagnóstico isolado, mas um sintoma comum a vários transtornos, presente em vários quadros de saúde mental descritos no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR (APA, 2022) e na Classificação Internacional de Doenças, 11ª Revisão – ICD-11 (WHO, 2022).
Também é importante distinguir a irritabilidade ocasional, parte normal da experiência humana e a irritabilidade persistente e generalizada, que causa sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento diário (Copeland et al., 2013).
Sintomas associados
A irritabilidade pode manifestar-se isoladamente ou em conjunto com outros sinais, como:
Alterações frequentes de humor;
Sensação constante de tensão ou agitação;
Maior sensibilidade a estímulos (ruídos, cheiros, luz);
Frustração fácil;
Comportamentos agressivos ou impulsivos;
Sensação de estar “em alerta” ou em hipervigilância (APA, 2022).
Causas possíveis
Físicas
Privação ou má qualidade do sono;
Fadiga extrema;
Fome ou alimentação irregular;
Alterações hormonais (ex.: síndrome pré-menstrual);
Problemas da tiróide;
Dor crónica;
Lesões cerebrais;
Uso e abstinência de substâncias (cafeína, nicotina, álcool ou outras) (APA, 2022; WHO, 2022).
Psicológicas e psiquiátricas
A irritabilidade é relevante em diversos quadros clínicos, incluindo:
Perturbações depressivas;
Perturbações de ansiedade;
Perturbações relacionadas com stress e trauma (hipervigilância e agitação psicofisiológica);
Perturbação bipolar;
Perturbações do neurodesenvolvimento, como a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção.
Perturbação Disruptiva da Desregulação do Humor, no caso das crianças e dos adolescentes (APA, 2022);
Perturbação de Oposição e Desafio, de acordo com o ICD-11 (WHO, 2022).
Quando procurar ajuda profissional?
Procure avaliação profissional se:
A irritabilidade for constante ou intensa;
Existir uma sensação de estar “em alerta” de forma contínua;
As reações forem difíceis de controlar;
Houver impacto na escola, trabalho ou relações;
Existir sofrimento significativo próprio ou em familiares.
Em situações de crise ou risco imediato, contacte os serviços de emergência (em Portugal, o 112).
Formas de tratamento
Depende da causa identificada e pode incluir:
Avaliação médica para exclusão de causas físicas;
Acompanhamento psicológico ou psiquiátrico;
Psicoterapia (ex.: terapia cognitivo-comportamental);
Medicação, quando clinicamente indicada (APA, 2022; WHO, 2022).
Estratégias de autoajuda
Dormir o suficiente e manter higiene do sono;
Reduzir o consumo de cafeína, álcool e tabaco;
Manter horários regulares de alimentação;
Praticar atividade física regularmente (caminhar, nadar, fazer alongamentos);
Identificar gatilhos de irritabilidade;
Manter diário de humor;
Técnicas de respiração, relaxamento ou mindfulness;
Ouvir música, ler ou fazer atividades criativas;
Reservar tempo para autocuidado (Brotman et al., 2017).
A irritabilidade não é uma fraqueza nem um defeito de personalidade. É um sintoma clínico relevante, quando persistente e incapacitante. A avaliação precoce, compreensão e estratégias de autocuidado ou intervenção profissional podem melhorar significativamente a qualidade de vida (Copeland et al., 2013; Stringaris, 2011). Nestes casos, é importante não ignorar os sinais e procurar ajuda profissional o quanto antes. Falar com um psicólogo, psicoterapeuta ou médico de família pode fazer toda a diferença, ajudando a identificar o problema e a encontrar estratégias eficazes para recuperar o equilíbrio.
Referências
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.). https://doi.org/10.1176/appi.books.9780890425787
Brotman MA, Kircanski K, Leibenluft E. (2017). Irritability in children and adolescents. Annual Review of Clinical Psychology, 13, 317–341. 10.1146/annurev-clinpsy-032816-044941
Copeland WE, Angold A, Costello EJ, Egger H. (2013). Prevalence, comorbidity, and correlates of DSM-5 disruptive mood dysregulation disorder. American Journal of Psychiatry, 170(2), 173–179. https://doi.org/10.1176/appi.ajp.2012.12010132
Stringaris A. (2011). Irritability in children and adolescents: a challenge for DSM-5. European Child & Adolescent Psychiatry, 20(2), 61–66. https://doi.org/10.1007/s00787-010-0150-4
World Health Organization. (2022). Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders (CDDR). WHO

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