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Será a Blue Monday o dia mais triste do ano?


Todos os anos, temos, na terceira segunda-feira de janeiro, a referência à Blue Monday, assim intitulada por ser “conhecida” como o dia mais triste do ano. A expressão surgiu associada a uma campanha publicitária, que alegava existir uma “fórmula” capaz de calcular o dia mais triste do ano, combinando fatores como o clima, as dívidas pós-festas e a diminuição da motivação. A isto soma-se ainda o peso simbólico de janeiro ser tradicionalmente visto como um período de resoluções, novos objetivos e recomeços, o que pode aumentar a pressão social, a autocrítica e sentimentos de frustração quando a realidade não corresponde às expectativas.

Apesar de não ter uma base científica, este conceito pode servir como um ponto de partida para refletirmos sobre como vivenciamos emoções difíceis durante o inverno, e a necessidade de nos cuidarmos, de modo a preservarmos a nossa saúde mental.


Porque é que nos sentimos mais em baixo nesta altura do ano?

O humor pode ser influenciado por fatores biológicos, psicológicos e sociais, que variam de pessoa para pessoa e ao longo do tempo (Nolen-Hoeksema, 2012). Assim, a Blue Monday, na sua essência, é uma forma simplificada de nomear a interação destes fatores com a sazonalidade. Esta interação ajuda a explicar porque é que o inverno e o início do ano podem ser vividos como um período emocionalmente mais exigente:

  • Exposição solar reduzida - a menor exposição à luz solar pode interferir com os ritmos biológicos, afetando o sono, os níveis de energia e o humor.
  • Menor contacto social e sensação de isolamento - após o período das festas, é comum regressarmos a rotinas mais solitárias e exigentes, com menos momentos de convívio e lazer. Consequentemente, o isolamento social potencia o risco de sofrimento psicológico e pode contribuir para sentimentos de tristeza, vazio ou desânimo (Cacioppo & Cacioppo, 2018).
  • Expectativas e resoluções de Ano Novo defraudadas - o início do ano costuma ser associado a metas, mudanças e novos objetivos. Quando estas expectativas são demasiado elevadas ou difíceis de concretizar, podem surgir sentimentos de frustração, culpa ou sensação de fracasso, que acabam por pesar no bem-estar emocional (Hennes et al., 2019).

 

Importa sublinhar que sentir-se mais em baixo, mais cansado ou menos motivado em determinadas fases da vida é compreensível e expectável. Muitas vezes, estes estados refletem processos naturais de adaptação, mudança ou sobrecarga. No que toca à nossa saúde mental, todas as emoções são importantes e têm uma função adaptativa. Mesmo as mais difíceis e desconfortáveis (tristeza, raiva, medo, ansiedade, vergonha…) são sinais preciosos que nos avisam quando algo em nós ou no nosso meio ambiente precisa de atenção, cuidado, limites ou transformação.

Neste sentido, salienta-se a importância de aumentar a literacia emocional, o que implica aprender a relacionarmo-nos de forma mais consciente com aquilo que sentimos:

  • Reconhecendo, nomeando e aceitando as próprias emoções;
  • Compreendendo o que as desencadeia; 
  • Respondendo de forma mais consciente e ajustada à necessidade emocional para a qual nos alertam.

Para colocar este conhecimento em prática, existem várias estratégias que, no dia a dia, podem contribuir significativamente para a preservação do nosso bem-estar emocional:

  • Manter rotinas de sono, alimentação e atividade física;
  • Falar sobre o que se sente com pessoas de confiança;
  • Reavaliar a exigência e complexidade dos objetivos a que nos propomos e definir objetivos ajustados à nossa realidade;
  • Preservar momentos de descanso, lazer e contacto social.


 

Estas práticas não substituem a ajuda profissional, mas podem fazer parte de uma postura mais consistente de autocuidado e prevenção da nossa saúde mental.

 

Ainda assim, há momentos em que o sofrimento deixa de ser apenas uma reação passageira às circunstâncias, e passa a interferir de forma significativa na nossa qualidade de vida. Nesta altura do ano, é comum verificar-se um aumento de casos de Perturbação Afetiva Sazonal, ainda que este quadro esteja mais associado às mudanças de estação. Nestes casos, os sintomas tendem a ser mais persistentes, pelo que se recomenda a procura de ajuda profissional especializada para confirmar o diagnóstico e obter o melhor tratamento.

Alguns sinais de alerta incluem:

  • Tristeza ou sensação de vazio persistentes durante várias semanas;
  • Perda de interesse ou prazer em atividades habitualmente gratificantes;
  • Alterações marcadas no sono ou no apetite;
  • Cansaço constante ou falta de energia;
  • Dificuldade em concentrar-se ou em cumprir as tarefas do dia a dia;
  • Sentimentos de desesperança ou de desvalorização pessoal.

 

    Se este início do ano estiver a ser particularmente difícil ou exigente, saiba que não tem de o enfrentar sozinho/a. Nestas situações, a psicoterapia oferece um espaço seguro para compreender o que está a acontecer, reorganizar pensamentos e emoções e desenvolver formas mais saudáveis de lidar com as dificuldades.

Dr.ª Raquel Gonçalves


Referências

Cacioppo, J. T., & Cacioppo, S. (2018). Loneliness in the modern age: An evolutionary theory of loneliness (ETL). Advances in Experimental Social Psychology, 58, 127–197.

Hennes, E. P., Fishbach, A., & Kruglanski, A. W. (2019). The motivational power of busy: How perceived self-efficacy substitutes for an action goal. Journal of Personality and Social Psychology, 116(1), 125–149.

Nolen-Hoeksema, S. (2012). Emotion regulation and psychopathology. Annual Review of Clinical Psychology, 8, 161–187.

 


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