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A mostrar mensagens com a etiqueta psicoeducação

Quando a confiança é quebrada: porque começamos a procurar sinais de fiabilidade?

A confiança constitui uma das bases fundamentais das relações interpessoais próximas. Não se resume à expectativa de que o outro não nos irá desiludir: envolve também a perceção de que essa pessoa é previsível, fiável e capaz de agir de forma consistente com os compromissos estabelecidos na relação (Rempel et al., 1985). Confiar implica, por isso, aceitar algum grau de vulnerabilidade, uma vez que não podemos controlar completamente as intenções ou os comportamentos futuros da outra pessoa. É precisamente esta vulnerabilidade que torna uma quebra de confiança psicologicamente relevante . Uma mentira significativa, uma infidelidade ou uma omissão deliberada podem colocar em causa não apenas o comportamento específico que ocorreu, mas também a representação que tínhamos da relação. Se aquilo que julgávamos saber sobre o outro se revelou incompleto ou incorreto, torna-se compreensível que surja uma questão: “Se não percebi isto antes, o que mais poderá estar a acontecer sem que eu saiba?”...

Porque precisamos de uma explicação para tudo? A nossa dificuldade em tolerar a incerteza

Há pessoas que têm dificuldade em ficar sem uma explicação. Se alguém demora a responder a uma mensagem, querem perceber porquê. Se uma relação termina, procuram reconstruir todos os acontecimentos, em busca de sinais ignorados ou de comportamentos que a outra pessoa (dis)simulou. Se surge um sintoma, pesquisam até encontrarem uma hipótese. Perante um comportamento inesperado, procuram rapidamente uma causa. E os exemplos poderiam continuam indefinidamente. À primeira vista, isto pode parecer apenas curiosidade. Mas, por vezes, há algo mais: uma dificuldade em tolerar a incerteza. Por muito que custe aceitar, a incerteza faz parte da vida. Não sabemos como vai correr uma entrevista, o que outra pessoa está a pensar ou quais serão as consequências de uma decisão. Ainda assim, nem todos lidamos com esse desconhecido da mesma forma. Algumas pessoas conseguem pensar: “Não tenho informação suficiente. Vou esperar para perceber” , enquanto outras sentem uma necessidade maior de encontr...

O peso invisível da vergonha: do silêncio à compreensão

  A vergonha é uma emoção pouco falada, mas profundamente sentida. Ao contrário da culpa, que tende a centrar-se num comportamento ("fiz algo errado"), a vergonha dirige-se à forma como a pessoa vê a sua própria identidade ("há algo de errado comigo"). Surge quando nos autoavaliamos de forma negativa e acreditamos que existe algo de inadequado ou indesejado em quem somos, influenciando também a forma como pensamos que os outros nos percecionam (Gilbert, 2014; Tangney & Dearing, 2002). Todos nós experienciamos vergonha em algum momento da vida. Em níveis moderados, esta emoção tem uma função adaptativa: pode ajudar-nos a reconhecer quando ultrapassámos um limite, reparar um erro e preservar relações importantes. Por exemplo, depois de interromper repetidamente um amigo durante uma conversa, sentir vergonha pode motivar um pedido de desculpas e uma mudança de comportamento. No entanto, quando deixa de estar associada a situações específicas e passa a ser frequen...

Alexitimia: quando não conseguimos nomear o que sentimos

Quando se fala da dificuldade em identificar, nomear ou comunicar os sentimentos, podemos estar a falar de alexitimia. Apesar de não ser uma perturbação clínica, é considerado um traço de personalidade, que se refere à forma como as pessoas fazem o processamento emocional, e cuja presença está associada a várias perturbações clínicas (depressão, ansiedade, alimentares). Isto não significa que a alexitimia seja a causa destas perturbações, ou uma consequência garantida das mesmas. O que é? A alexitimia é um traço de personalidade (Luminet & Nielson, 2025), o que significa        que é uma característica duradoura e que influencia a forma como pensamos, sentimos e agimos. Isto também significa que é um traço que toda a gente possui, mas em diferentes graus. Como outros traços de personalidade, a alexitimia distribui-se ao longo de um contínuo: algumas pessoas apresentam apenas algumas destas características, enquanto noutras estas dificuldades são mais ...

A Importância da Relação Terapêutica na Mudança Psicológica

            Arrisco-me a dizer que a relação terapêutica é um dos elementos mais importantes da intervenção psicológica, independentemente da orientação teórica do psicólogo. Embora as técnicas, os modelos de avaliação e os protocolos de intervenção sejam relevantes, a investigação tem mostrado, de forma consistente, que a qualidade da relação estabelecida entre psicólogo e cliente influencia significativamente o processo e os resultados da psicoterapia. Esta relação não deve ser entendida apenas como um aspeto humano ou secundário na intervenção, mas como uma condição ativa que facilita a mudança psicológica. Um dos conceitos mais importantes para compreender esta temática é o de aliança terapêutica . Bordin (1979) definiu a aliança terapêutica como uma colaboração entre terapeuta e cliente assente em três dimensões: o acordo quanto aos objetivos da terapia, o acordo quanto às tarefas necessárias para alcançar esses objetivos e o vínculo emocional...

O Envelhecimento (mentalmente) saudável

  De acordo com a World Health Organization, 2026, em Portugal, 26% da população é composta por adultos mais velhos, com idade superior a 65 anos. Estima-se que esta percentagem da população continue a crescer. À medida que a ciência evolui, a esperança média de vida vai crescendo. Mas o envelhecimento populacional levanta novos desafios, e alguns deles, no âmbito da Saúde Mental. O envelhecimento é um processo que começa à nascença, marcado por alterações fisiológicas, físicas, psicológicas, sociais, ocupacionais, e que por vezes, pode causar preocupação. Uma vez que é comum ver o envelhecimento de um ponto de vista negativo, tendemos a esquecer os pontos positivos da idade, falhamos em reconhecer sinais de preocupação ou até os desconsideramos por achar que são normais. No entanto, como podemos ver no Global Burden of Disease, as perturbações mentais representam a 2ª causa de perda de saúde para os portugueses com 60 ou mais anos de idade (IHME, 2025). Isto significa qu...