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O peso da Gratidão

A Gratidão é frequentemente apresentada como um valor universal. Desde cedo aprendemos a dizer “obrigado” e a reconhecer aquilo que os outros fazem por nós.

De facto, a Gratidão está associada a benefícios emocionais e interpessoais, a maiores níveis de satisfação com a vida e a uma maior capacidade regulação emocional (Emmons & McCullough, 2003; Jans-Beken, et. al, 2019). Enquanto emoção cognitiva complexa, é o resultado da atribuição de significados positivos que se dá a uma determinada experiência afetiva. Assim, a Gratidão pode favorecer o fortalecimento das relações interpessoais, promover comportamentos pró-sociais, resiliência e contribuir para o bem-estar psicológico (Algoe & Zhaoyang, 2016; Kerry et. al, 2023).

Contudo, estes benefícios tendem a emergir quando a gratidão é vivida como escolha interna e não como imposição moral ou mecanismo de reparação constante. Quando a gratidão se confunde com obrigação, esta deixa de ser um reconhecimento genuíno e pode transformar-se numa sensação de dívida constante, como se receber implicasse, inevitavelmente, ficar em falta – a pessoa pode sentir que deve retribuir na mesma medida, que não pode falhar, ou que não pode desiludir quem lhe fez o favor ou ofereceu apoio. Neste registo, a gratidão aproxima-se mais da culpa do que do apreço, podendo gerar um sentimento de pressão e potenciando o medo de não corresponder (a algo ou a alguém).

Alguns sinais de que a gratidão pode estar a ser vivida como peso tendem a incluir:

  • Dificuldade em aceitar ajuda – evitar pedir ou receber apoio para não se sentir em dívida.
  • Necessidade de compensação imediata – sentir urgência em retribuir, mesmo quando tal não é esperado.
  • Manutenção de relações por obrigação – permanecer em vínculos pouco satisfatórios por sentir que “deve” algo ao outro.
  • Culpa ao estabelecer limites – dizer “não” pode ser interpretado como traição ou ingratidão.
  • Autossacrifício recorrente – colocar as necessidades dos outros consistentemente acima das suas.

Esta conceção de Gratidão pode ter origem em experiências precoces. Nalguns contextos familiares, onde o afeto estava condicionado ao desempenho, à obediência ou à lealdade, a pessoa pode ter aprendido que receber implica pagar — com comportamentos, escolhas ou renúncias pessoais. Também em dinâmicas onde houve sacrifícios repetidamente enfatizados, a mensagem implícita pode ter sido a de que existir já constitui, por si só, uma dívida. Ao longo do tempo, esta aprendizagem poderá consolidar-se como uma crença de que “se não retribuo, sou ingrato”. Nestes casos, a gratidão deixa de ser uma emoção reguladora e passa a reforçar padrões de subjugação, autossacrifício ou procura excessiva de aprovação (Young, Klosko, & Weishaar, 2003).

A diferença central entre estas duas formas de gratidão reside na motivação subjacente. Na primeira, o comportamento é orientado pelo medo – de falhar, de perder a relação, de ser visto como ingrato – podendo exigir compensação imediata. Na segunda, o comportamento é orientado pela liberdade e pelo afeto genuíno, surgindo como um movimento espontâneo de valorização do que foi recebido e mantendo intacto o direito à autonomia e aos limites pessoais.

Reconhecer o peso da gratidão é um passo importante para compreender padrões relacionais que podem estar a condicionar o seu bem-estar emocional e a sua satisfação com a vida. Se sente que as suas relações interpessoais se enquadram nestes padrões, poderá considerar a ajuda profissional para desconstruir as crenças inerentes a essas dinâmicas relacionais. Ao questionar crenças como “tenho sempre de retribuir” ou “não posso desiludir quem fez algo por mim” abre espaço para uma reformulação interna, i.e., da forma como vê os outros, o mundo e a si mesmo.

A Gratidão, quando vivida de forma integrada e consciente, é uma emoção poderosa, que lhe permite reconhecer aquilo que recebe sem perder a liberdade de o desfrutar. Cultivar uma gratidão que seja enraizada na escolha e na responsabilidade pessoal é um caminho para relações mais equilibradas, onde dar e receber não são obrigações, mas sim movimentos livres, libertadores e recíprocos.

Dr.ª Raquel Gonçalves

 

Referências Bibliográficas

Algoe, S. B., & Zhaoyang, R. (2016). Positive psychology in context: Effects of expressing gratitude in ongoing relationships depend on perceptions of enactor responsiveness. The Journal of Positive Psychology, 11(4), 399–415.

Emmons, R. A., & McCullough, M. E. (2003). Counting blessings versus burdens: An experimental investigation of gratitude and subjective well-being in daily life. Journal of Personality and Social Psychology, 84(2), 377–389.

Jans-Beken, L., Jacobs, N., Janssens, M., Peeters, S., Reijnders, J., Lechner, L., & Lataster, J. (2019). Gratitude and health: An updated review. The Journal of Positive Psychology, 15(6), 743–782.

Kerry, N., Chhabra, R., & Clifton, J. D. W. (2023). Being thankful for what you have: A systematic review of evidence for the effect of gratitude on life satisfaction. Psychology Research and Behavior Management, 16, 4799–4816.

Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema therapy: A practitioner’s guide. Guilford Press.


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