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Burnout: E quando o stresse deixa de ser adaptativo?

Abril é o mês da sensibilização para o Stresse, e dia 28 é o dia mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, pelo que se cria uma oportunidade particularmente relevante para abordar o stresse no local de trabalho.

O stresse em si não é negativo: é uma resposta natural a desafios ou exigências, que nos move de forma a adaptarmo-nos. Quando o stresse se torna persistente e/ou intenso, a sua acumulação compromete significativamente a nossa saúde física e psicológica (e.g. Guedes, 2020). Quando se torna crónico, pode levar ao desenvolvimento da síndrome de burnout.

Entre os efeitos mais comuns do stresse crónico encontram-se:

·         Fadiga;

·         Irritabilidade;

·         Falta de motivação e anedonia (perda do prazer ou interesse em atividades anteriormente consideradas agradáveis);

·         Sintomas físicos (dores de cabeça, problemas digestivos, alterações do sono);

·         Isolamento;

 

A síndrome de burnout é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e na Classificação Internacional de Doenças – 11ª revisão (CID-11) como um fenómeno ocupacional resultante de uma presença crónica de stresse relacionado com o local de trabalho, e que não está a ser gerido de forma eficaz (World Health Organization [WHO], 2019). Esta síndrome caracteriza-se, por três dimensões principais (WHO, 2019):

·         Exaustão extrema,

·         Distanciamento mental ou cinismo (atitude negativa ou de desconfiança) em relação ao trabalho,

·         Redução da eficácia profissional.

 

Todos os trabalhos apresentam desafios e, como tal, momentos que causam stresse. Em situações normais, os períodos de descanso permitem restabelecer o equilíbrio. No entanto, por motivos que podem estar relacionados à pessoa, à sua função, ou a outros fatores externos, nem sempre é possível fazer uma recuperação eficaz do stresse, e é nesta ausência que se pode desenvolver a síndrome de burnout.

Apesar do stresse que leva à síndrome de burnout ter relação específica com o contexto profissional, criando dificuldades como o absentismo e a perda de produtividade, afeta também outras áreas da nossa vida pessoal como o nosso bem-estar, físico e mental, e as nossas relações sociais (Ordem dos Psicólogos Portugueses [OPP], 2020).

O burnout pode facilmente ser confundido com outros problemas de saúde pela partilha de sintomas. Como já foi mencionado, o stresse é uma resposta normal e adaptativa, e nestes casos costuma ser uma resposta aguda a curto ou médio prazo; enquanto o burnout está associado à exposição ao stresse a longo prazo, ou stress crónico, em contexto profissional. Diferencia-se também, por exemplo, de uma depressão, porque apesar de partilharem sintomas como irritabilidade, anedonia ou lentificação motora, a depressão afeta mais áreas da vida, enquanto as dificuldades do burnout surgem especificamente do contexto profissional (ainda que possam afetar outras áreas de vida).

O burnout não surge de forma súbita, é resultado de um processo gradual. Entre os principais fatores que contribuem para o seu desenvolvimento destacam-se (OPP, 2020):

·         O excesso de carga de trabalho, sem recursos adequados;

·         A falta de autonomia e controlo, sobre tarefas, decisões ou organização do trabalho;

·         Realização de tarefas perigosas ou tarefas emocionalmente exigentes;

·         Ausência de recuperação, por pouca oportunidade para descanso físico e mental;

·         Falta de realização profissional ou nas tarefas desempenhadas;

·         Horários de trabalho prolongados e/ou por turnos;

·         Conflitos entre colegas e superiores.

 

Se o burnout se deve, pelo menos parcialmente, à dificuldade de gerir o stresse, então existem pequenas estratégias que podemos utilizar no nosso quotidiano para prevenir ou reduzir o impacto do burnout incluem (OPP, 2019; Verma, 2025):

·         Aproveitar pequenos momentos para estarmos plenamente conscientes no presente, e regularmos as emoções (por exemplo, quando estamos a lavar as mãos, a esperar que o portão da garagem abra, ao entrar no carro antes de ir para casa);

·         Nomear e tornarmo-nos conscientes do que estamos a sentir. Ser capaz de identificar o que estamos a sentir contribui para a nossa boa gestão da emoção;

·         Aprender a estabelecer limites e pequenas pausas.

 

Ainda assim, estas estratégias podem não ser suficientemente eficazes para auxiliar na recuperação, e, portanto, exigem uma intervenção mais qualificada. O burnout tem cura, sendo a medicação e a psicoterapia fundamentais nesses casos, e os profissionais de saúde uma das principais vias de apoio. Os psicólogos podem ajudar tanto o indivíduo como as organizações, através da avaliação do stresse e burnout, do desenvolvimento de estratégias de regulação emocional e autocuidado, e da promoção de um ambiente psicologicamente saudável.

 

Bibliografia

Guedes, A. L. P. (2020). Ansiedade, stress e burnout: definição conceptual e operacional, inter-relações e impacto na saúde (Master's thesis, Universidade da Beira Interior (Portugal)). http://hdl.handle.net/10400.6/10664

Ordem dos Psicólogos Portugueses: OPP. (2020, 5 de agosto). Perguntas e Respostas sobre Burnout. https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/noticia/2997

Varma, S. (2025, 3 de fevereiro). Preventing Burnout: A guide to Protecting your Well-Being. APA Blogs. https://www.psychiatry.org/news-room/apa-blogs/preventing-burnout-protecting-your-well-being

World Health Organization: WHO. (2019, 28 de maio). Burn-out an “occupational phenomenon”: International Classification of Diseases.

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