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Situações traumáticas: O que são, como nos afetam e primeiros passos para cuidar de si


Ao longo da nossa vida, todos enfrentamos situações de stress e sofrimento, mas algumas são tão intensas ou perturbadoras que abalam profundamente a nossa sensação de segurança e bem-estar. Essas são as situações traumáticas: experiências extremamente stressantes que ameaçam de forma significativa a integridade física ou psicológica de uma pessoa, seja a própria ou a de um ente querido. Neste contexto, é importante frisar que o que é ou não traumático é profundamente subjetivo e pessoal: duas pessoas podem viver acontecimentos semelhantes e ser afetadas de formas muito diferentes.

Com este artigo, vamos conhecer melhor o que caracteriza as situações traumáticas, quais as consequências que podem trazer consigo e que estratégias pode começar a aplicar desde já para cuidar de si e promover a recuperação.

Segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses, as situações traumáticas incluem acontecimentos que nos podem fazer sentir em choque, assustados, ameaçados, humilhados, rejeitados, abandonados, invalidados, inseguros, horrorizados, sem poder ou controlo. Exemplos incluem (mas não se limitam a) acidentes graves, atos de violência (física, sexual ou emocional), desastres naturais, perdas súbitas, abuso, negligência ou situações repetidas de rejeição e humilhação – os chamados “pequenos T” ou “pequenos traumas” que se acumulam ao longo do tempo. 

Estas vivências desencadeiam reações naturais de stress no organismo. Não se trata de fraqueza, mas sim da forma como o corpo e a mente respondem automaticamente a algo que ultrapassa a nossa capacidade imediata de lidar.

Face a uma ameaça ou situação esmagadora, o nosso sistema nervoso ativa respostas de sobrevivência instintivas, conhecidas como as reações de luta (fight), fuga (flight) e congelamento (freeze).

  • Na luta, a pessoa pode sentir um impulso para confrontar ou protestar contra a ameaça.

  • Na fuga, surge o desejo de escapar, esconder-se ou afastar-se da situação.

  • No congelamento, pode ocorrer uma paralisia temporária, em que a pessoa se sente incapaz de se mexer ou reagir, como se o corpo “desligasse” momentaneamente para proteger-se.

Algumas pessoas podem ainda apresentar outras respostas, como obedecer de forma automática ou tentar apaziguar a situação (fawn). Estas reações não são escolhas conscientes, mas mecanismos biológicos antigos que o organismo usa para tentar garantir a sobrevivência quando o perigo parece avassalador. 

Este tipo de situações pode gerar consequências que podem manifestar-se a curto prazo ou a longo prazo, a vários níveis:

  • Psicológico/emocional – pensamentos intrusivos, flashbacks, pesadelos, ansiedade constante, depressão, baixa autoestima, sensação de impotência ou culpa, irritabilidade, apatia, perda de interesse por atividades prazerosas ou ideação suicida;

  • Físico – dificuldades em manter padrões de sono regulares (insónia, hipersónia, sono não reparador), problemas gastrointestinais, tensão muscular, dores de cabeça, alterações no apetite, hipertensão, fadiga crónica e maior risco de doenças cardiovasculares ou outras somatizações a longo prazo;

  • Cognitivo – dificuldades de concentração, memória e tomada de decisões, desconexão de si próprio e/ou da realidade”;

  • Social e laboral – isolamento, dificuldades em manter relações, evitamento de situações ou lugares que recordem o trauma, absentismo, menor desempenho no trabalho ou na vida quotidiana e, nos casos mais severos, incapacidade funcional.

O impacto destas situações varia muito de pessoa para pessoa e depende da gravidade do evento, da história de vida, do suporte disponível e da resiliência individual.

Quando não são devidamente processadas, estas reações podem prolongar-se e contribuir para dificuldades de saúde mental, como a Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT) e outras perturbações associadas, conforme reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela American Psychological Association (APA).

De acordo com a OMS, embora a maioria das pessoas expostas a eventos traumáticos recupere naturalmente ao longo do tempo, uma parte significativa pode desenvolver sintomas persistentes que afetam a qualidade de vida, o funcionamento diário e o bem-estar geral durante meses ou até anos.

Seja qual for o tipo de situação traumática – única e de grande intensidade (como um acidente ou assalto) ou repetida e subtil (como negligência emocional na infância) –, se estiver a vivenciar os seus efeitos, mobilize-se e adira às estratégias que pode colocar desde já em prática, baseadas nos Primeiros Socorros Psicológicos recomendados pela OMS e adaptados pela OPP:

  • Perante uma situação traumática, garanta a sua segurança imediata – afaste-se de qualquer risco atual e crie um ambiente o mais calmo e previsível possível;

  • Garanta cuidados básicos – priorize o sono, a alimentação equilibrada, a hidratação e o movimento leve (um passeio curto pode ajudar a regular o sistema nervoso);

  • Conecte-se com o apoio social – fale com pessoas de confiança, familiares ou amigos que possam ouvir sem julgar. O simples facto de se sentir acompanhado reduz a sensação de isolamento;

  • Evite álcool, drogas ou comportamentos de risco – podem dar alívio temporário, mas agravam os sintomas a médio prazo;

  • Pratique técnicas de regulação emocional – como a respiração profunda com atenção plena, ajudar a acalmar o sistema de alerta;

  • Procure ajuda profissional atempadamente – A intervenção precoce tem um papel importante na prevenção do desenvolvimento de psicopatologias associadas. Se os sintomas interferirem com o funcionamento diário de forma significativa ou incluírem pensamentos de autoagressão, contacte um psicólogo. Em Portugal, pode ligar para o Serviço de Aconselhamento Psicológico do Serviço Nacional de Saúde (SNS) 24 (808 24 24 24 – gratuito, 24h) ou aceder aos serviços de saúde mental privados ou do SNS. Abordagens como a terapia cognitivo-comportamental focada no trauma e EMDR são as mais recomendadas.

Acima de tudo, nunca se esqueça: as reações a situações traumáticas são respostas normativas a eventos “atípicos”. Conhecer os sinais e agir precocemente é fundamental para proteger a sua saúde mental. As situações traumáticas não definem quem é, mas a forma como cuida de si, sim. Merecemos viver com segurança, dignidade e possibilidade de recuperação. E isso não é um privilégio, é um direito! 

Se está a experienciar alguns dos sinais e sintomas descritos acima, deverá procurar ajuda profissional o quanto antes. Falar com um psicólogo, psicoterapeuta ou médico de família pode fazer toda a diferença, ajudando a encontrar estratégias eficazes para recuperar o equilíbrio.


Dra. Mariana Correia


Referências 

American Psychological Association. (2025). APA clinical practice guideline for the treatment of posttraumatic stress disorder (PTSD) in adults. https://www.apa.org/ptsd-guideline

Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2022). Situações traumáticas: O que são e como lidar com elas. https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_situacoestraumaticas_oquesaoecomolidarcomelas.pdf

World Health Organization. (2024). Post-traumatic stress disorder (Fact sheet). https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/post-traumatic-stress-disorder




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