Desejar que vida seja
meramente construída por momentos de conforto e felicidade é uma utopia – um
sonho irrealista. Regular as nossas emoções em momentos desafiantes, como um
luto, e aprender a gerir mudanças que estão fora do nosso controlo não é fácil,
mas é necessário para viver com saúde e bem-estar.
O luto é um processo
normativo e adaptativo face à perda significativa de algo ou alguém, que todos
nós já experienciámos ou iremos experienciar em algum momento da nossa vida. Este
evidencia-se como um momento marcante para a pessoa enlutada, e embora algumas
perdas sejam mais significativas que outras considerando o vínculo
estabelecido, estas tendem a ser desafiadoras a nível emocional, cognitivo e
comportamental, sendo a tristeza, a desorientação, a vontade de se isolar do
mundo e as alterações do apetite e do sono alguns dos indícios comuns
experienciados (Franco, 2008).
O processo do luto não
é vivenciado da mesma forma por todas as pessoas. Nesse sentido, é importante
termos em especial atenção ao agravamento da sintomatologia, assim como à
duração da mesma, como forma de prevenir o desenvolvimento de um luto
patológico.
Ainda está muito
presente na nossa sociedade a ideia de que “o tempo tudo cura”, mas o fator “tempo”,
por si só, não é suficiente para ultrapassarmos as perdas ou as vivências mais
dolorosas. O processo de luto, requer tempo, espaço, cuidado, atenção e suporte
para poder ser devidamente processado e possibilitar à pessoa enlutada
reconstruir uma nova rotina funcional com qualidade de vida.
Face a este processo
complexo e doloroso, a pessoa enlutada pode tender a isolar-se socialmente e a
ficarem mais vulneráveis devido ao impacto que essa perda tem na sua vida.
Assim, algumas pessoas não se sentem confortáveis em mostrar essa faceta vulnerável,
pelo que escolhem pessoas específicas com quem partilham as suas emoções.
Contudo, muitas pessoas que experienciam luto acabam por decidir fazer o
processo sozinhas, sendo mais doloroso e solitário. É neste contexto que surge
uma possibilidade terapêutica interessante: recorrer a animais de estimação.
Segundo um estudo realizado (Cacciatore et al. 2021), os animais de estimação,
grupos de apoio, terapeutas e amigos, revelam-se um excelente apoio social face
aos processos de luto.
Deste modo, conviver
com um animal de estimação pode mostrar-se benéfico particularmente em
situações de processos de luto, pois:
•
Melhora
tanto a saúde física como a saúde mental (Teixeira et al., 2023) – a convivência com o animal
de estimação irá ter um impacto a nível neuroquímico reduzindo os níveis de
cortisol e proporcionando ao enlutado sensação de bem-estar;
•
Mantém
uma rotina (Hackmann
& Matera, 2023) – cuidar do animal de estimação irá requerer uma rotina
estruturada, evitando que o enlutado se mantenha excessivamente isolado;
•
É
uma presença terapêutica –
os animais de estimação agem como ouvintes silenciosos, proporcionando
conforto.
• Facilita a interação social (Silva, 2022) – alguns animais de estimação requerem sair de casa, o que proporcionará ao enlutado contacto com o mundo exterior e possivelmente com outras pessoas.
Os
animais de estimação podem ser uma grande fonte de suporte face aos processos
de luto, mas caso não tenha a possibilidade de ter um animal de companhia que
o/a auxilie nesta fase difícil, pode optar pela realização de Terapia Assistida
por Animais (TAA), igualmente benéfica para a saúde mental (Araújo et al.,
2022). A TAA é uma abordagem terapêutica que tem por base intervir em
dificuldades cognitivas, emocionais, físicas e sociais, contando com a ajuda de
animais devidamente treinados, tendo como objetivo que a interação
animal-humano possa ajudar o cliente/paciente a gerir estas dificuldades, e
assim fomentar o seu bem-estar (Oliveira & Pucci, 2021). Esta abordagem é
indicada para qualquer faixa etária (Araújo et al., 2022) e encontra-se em
expansão. Poderá sempre pesquisar na sua área de residência se há clínicas ou
centros com esta modalidade terapêutica.
No caso de não existir,
não hesite em procurar ajuda de um psicólogo. Não silencie a sua dor.
Independentemente do tipo de luto que está a vivenciar, dispõe de profissionais
competentes para o ajudar a ultrapassar esta fase tão desafiante. Não está
sozinho.
Referências Bibliografias
Araújo,
F. G. A., de Sousa, C. P., Amorim, J. S., Magalhães, G. S., da Fonseca Augusto,
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Cacciatore, J., Thieleman, K.,
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traumatic grief. PloS
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Franco,
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Hackmann,
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Oliveira,
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Teixeira,
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saúde mental do ser humano. Revista Científica Do Tocantins, 3(1),
1–8. Recuperado de https://itpacporto.emnuvens.com.br/revista/article/view/153
Dra. Beatriz Santos

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