Chorar é um dos comportamentos humanos mais universais e, paradoxalmente, um dos menos compreendidos. Embora esteja muitas vezes associado (erroneamente) a fraqueza ou perda de controlo, a verdade é que o choro é uma resposta fisiológica complexa, biologicamente adaptativa e fundamental sob o ponto de vista psicológico para o nosso bem-estar.
É interessante que o choro começa por ser, no momento do nascimento, algo expectável e desejável. Quando somos bebés, ele é uma das primeiras e mais claras formas de comunicação humana. Quando ainda não temos ligações neuronais que nos permitam compreender e reproduzir vocábulos, o choro é um sinal acústico que alerta para a necessidade de cuidado e aumenta, desta forma, a probabilidade de sobrevivência. Nos primeiros tempos, pode sinalizar, por exemplo, fome, frio, necessidade de colo, sono, dores (e.g., Wang et al., 2025) – choros que, muitas vezes, ganham características próprias e permitem aos cuidadores identificar o que está em falta. À medida que vamos crescendo e desenvolvendo redes neuronais que nos permitem outros tipos de comunicação, como os gestos, a linguagem e a expressão verbal de necessidades, o choro passa a sinalizar, por exemplo, tristeza, raiva, reação a sensações no imediato (e.g., quedas, cortes, sustos) e também estados associados a alegria, empatia ou alívio. Parece que, quanto mais crescemos, mais a resposta de choro se vai adaptando, passando a ser usada de uma forma cada vez mais restrita.
O choro é uma resposta complexa que envolve inúmeros mecanismos neurofisiológicos associados à resposta emocional. Situações emocionalmente significativas podem ativar o sistema nervoso autónomo, particularmente o sistema simpático (parte do sistema nervoso associada à ativação de estados de alerta e stress) (e.g. Brown, et al., 2012). Durante estes eventos, o aumento da atividade deste sistema atua, por exemplo, no aumento da frequência cardíaca, condutância da pele e outras respostas fisiológicas, que ajudam o corpo a enfrentar os desafios. O choro emocional pode ter um papel na autorregulação e autoconsolo após estas situações ativadoras, ajudando a manter a homeostase biológica, através da estabilização da frequência respiratória e desaceleração do ritmo cardíaco (Sharman et al., 2020).
Para além da sua função individual, o choro desempenha também um papel importante na comunicação social: as lágrimas constituem um sinal interpessoal que pode comunicar sofrimento, vulnerabilidade ou necessidade de apoio, podendo facilitar a mobilização de suporte social em momentos de dificuldade e reforçando vínculos interpessoais através de respostas de cuidado (Hendriks et al., 2008). Da mesma forma, quando o choro é por motivos de valência positiva (e.g. gratidão ou felicidade), este efeito de aproximação e mobilização de suporte social também se verifica (e.g. Zickfeld et al., 2021).
Mas, se chorar pode ser tão regulador, porque é que não o fazemos mais e de forma mais livre? Muitas vezes, a associação social que se faz ao choro é erradamente atribuída a características como “fraqueza”, “infantilidade” ou “incapacidade” para lidar com as situações. E esta aprendizagem começa cedo, muitas vezes, com verbalizações desencorajadoras do choro (e.g. frases como “não chores, já és um menino crescido!”; “chorar é para bebés”) que fazem com que a supressão do choro seja aprendida – e pior, replicada e mantida. Também não podemos ignorar o papel diferenciador do sexo e do género na permissão que é socialmente dada ao choro (e.g., verbalizações como “não chores, não és uma menina”; “chorar é para maricas”) que fazem com que, erradamente, se atribua um rótulo infundado, especialmente crianças e adultos do sexo masculino quando choram. É importante desmistificar com clareza: chorar é humano e independente do sexo, identidade de género e orientação sexual de cada um.
Mas então é sempre bom chorar? A resposta honesta é: depende do contexto. O choro tende a ser catártico quando ocorre num ambiente seguro e empático, quando é iniciado pela própria pessoa (e não induzido externamente) e quando existe suporte social disponível. Nos contextos em que estas condições se verificam, o choro está associado a maior sensação de alívio, melhoria do humor e sentimentos de conexão interpessoal. Por outro lado, chorar em contextos de vergonha, humilhação, julgamento ou isolamento pode amplificar o sofrimento em vez de o aliviar (Bylsma et al., 2008). Isto reforça a importância não apenas de permitir o choro por si só, mas de cultivar ambientes emocionalmente seguros — em família, na escola, no trabalho — onde a expressão emocional autêntica seja acolhida sem estigma.
Se identifica que precisa do apoio de um lugar seguro para compreender o choro, explorar significados subjacentes a esta reposta e o impacto emocional de não usar o choro como resposta de autorregulação (por privação aprendida), um psicólogo(a) pode ajudá-lo(a) nesta jornada! Não hesite em procurar respostas (não só de choro) para promover o seu bem-estar e saúde mental.
Referências bibliográficas:
Brown, R., James, C., Henderson, L. A. & Macefield, V. G. (2012). Autonomic markers of emotional processing: skin sympathetic nerve activity in humans during exposure to emotionally charged images. Frontiers in Physiology, 3, 1-6. doi: 10.3389/fphys.2012.00394
Bylsma, L. M., Vingerhoets, A. J. J. M., & Rottenberg, J. (2008). When is crying cathartic? An international study. Journal of Social and Clinical Psychology, 27(10), 1165–1187. https://doi.org/10.1521/jscp.2008.27.10.1165
Hendriks, M. C. P., Croon, M. A., & Vingerhoets, A. J. J. M. (2008). Social Reactions to Adult Crying: The Help-Soliciting Function of Tears. The Journal of Social Psychology, 148(1), 22–42. https://doi.org/10.3200/SOCP.148.1.22-42
Sharman, L. S., Dingle, G. A., Vingerhoets, A. J., J., M. & Vanman, E. J. (2020). Using crying to cope: physiological responses to stress following tears of sadness. Emotion, 20(7), 1279-1291. https://doi.org/10.1037/emo0000633
Wang, Z., Cai, Y., Wang, X., Wu, S., Cao, Y., Xu, F. & Huang, M. (2025). The significance of an infant’s cry: a narrative review of physiological, pathological, and analytical perspectives. Frontiers in Pediatrics, 13, 1-12. https://doi.org/10.3389/fped.2025.1558951
Zickfeld, J. H., van de Ven, N., Pich, O., Schubert, T. W., Berkessel, J. B., Pizarro, J. J., … & Vingerhoets, A. J. J. M. (2021). Tears evoke the intention to offer social support: A systematic investigation of the interpersonal effects of emotional crying across 41 countries. Journal of Experimental Social Psychology, 95, 104137. https://doi.org/10.1016/j.
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