Adiar tarefas
importantes é um comportamento comum e frequentemente interpretado como simples
falta de vontade ou preguiça. No entanto, a literatura tem demonstrado que a
procrastinação é um fenómeno muito mais complexo, envolvendo dificuldades na
regulação de diferentes estados emocionais. Compreender a procrastinação para
além de explicações simplistas é fundamental para reduzir o estigma associado a
este comportamento e promover estratégias mais eficazes de intervenção.
O que é a procrastinação?
De um modo geral, adiar
tarefas ou decisões constitui um comportamento comum e que pode, em
determinadas circunstâncias, ser adaptativo (Ferrari, 1991). Por exemplo, uma
decisão pode ser adiada quando a pessoa opta por priorizar uma tarefa mais
relevante em detrimento de outra menos urgente. No entanto, quando este
adiamento se transforma num padrão recorrente, podemos estar perante o fenómeno
de procrastinação.
A procrastinação pode ser definida como a tendência para adiar voluntariamente uma atividade necessária e/ou importante, mesmo quando a pessoa antecipa que esse adiamento poderá ter consequências negativas (e.g., Klingsieck, 2013). É descrita como um comportamento prevalente e sabe-se que afeta cronicamente cerca de 20% dos adultos, sobretudo em populações jovens e em contextos académicos (e.g., Harriott & Ferrari, 1996; Steel & Ferrari, 2013). A literatura tem evidenciado que a procrastinação se manifesta no nível dos processos individuais, como a tomada de decisão e os comportamentos de autorregulação. Estes comportamentos tendem a repercutir‑se negativamente em diversos domínios de funcionamento, nomeadamente nos contextos académico, profissional, social, político, bem como no bem‑estar e na saúde (e.g., Barel, et al, 2023). Existem estudos que mostram que níveis elevados de procrastinação encontram‑se associados a pior desempenho académico (e.g., Kim & Seo, 2015), a menor satisfação com a vida e a diversos indicadores negativos de saúde física e mental, tais como stress, ansiedade, depressão e problemas de sono (e.g., Balkis & Duru, 2016; Steel, 2007).
Procrastinação: muito além da preguiça
Contrariamente à ideia
comum de que a procrastinação se deve apenas à preguiça ou falta de esforço, a
investigação tem demonstrado que se trata de um fenómeno multifacetado e
complexo, explicado por diferentes modelos teóricos (e.g., Klingsieck, 2013). À luz da Teoria da Regulação Emocional,
a procrastinação está intimamente ligada às dificuldades de regulação emocional
(e.g., Sirois & Pychyl, 2013). Vários estudos têm demonstrado que a
procrastinação tem sido associada a um elevado nível de stress, de
ansiedade e de depressão (e.g., Nie et al., 2025). Neste sentido, a literatura
aponta para a possibilidade da existência de um ciclo vicioso entre o distress
emocional associado a estes estados e a procrastinação (e.g., Nie et al., 2025).
Por exemplo, o stress, a ansiedade e a depressão podem afetar
negativamente o funcionamento cognitivo e motivacional dos indivíduos,
manifestando‑se em dificuldades de concentração, evitamento comportamental e
redução da motivação, o que pode levar ao adiamento das tarefas. Por outro
lado, a procrastinação, por sua vez, pode gerar sentimentos de culpa, de stress
e de autodepreciação, contribuindo para a manutenção deste ciclo ao longo do
tempo.
Compreender a
procrastinação a partir desta perspetiva mais abrangente permite não só
desmistificar o fenómeno, mas também promover abordagens mais empáticas e
eficazes para lidar com ela, tanto ao nível individual como clínico. Se está a
ter dificuldades em lidar com a procrastinação, não hesite em procurar apoio
para promover o seu bem-estar físico e mental.
Referências
Balkis, M., & Duru, E. (2016). Procrastination,
self-regulation failure, academic life satisfaction, and affective well-being:
underregulation or misregulation form. European Journal of Psychology
of Education, 31(3), 439-459. doi:10.1007/s10212-015-0266-5
Barel,
E., Shahrabani, S., Mahagna, L., Massalha, R., Colodner, R., & Tzischinsky,
O. (2023). State anxiety and procrastination: the moderating role of
neuroendocrine factors. Behavioral Sciences, 13(3),
204. https://doi.org/10.3390/bs13030204
Ferrari,
J. R. (1991). Compulsive procrastination: Some self-reported
characteristics. Psychological reports, 68(2), 455-458.
https://doi.org/10.2466/pr0.1991.68.2.455
Harriott,
J., & Ferrari, J. R. (1996). Prevalence of procrastination among samples of
adults. Psychological reports, 78(2), 611-616. https://doi.org/10.2466/pr0.1996.78.2.6
Kim,
K. R., & Seo, E. H. (2015). The relationship between procrastination and
academic performance: A meta-analysis. Personality and individual
differences, 82, 26-33. https://doi.org/10.1016/j.paid.2015.02.038
Klingsieck,
K. B. (2013). Procrastination: When Good Things Don’t Come to Those Who Wait. European
Psychologist 18(1), 24–34. doi: 10.1027/1016-9040/a000138
Nie, Y., Wang,
W., Zhou, F., Wang, T., Li, S., Liu, C., & Gao, J. (2025). The
association between procrastination and negative emotions in healthy
individuals: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in
Psychiatry, 16, 1624094. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2025.1624094
Sirois,
F., & Pychyl, T. (2013). Procrastination and the priority of short‐term
mood regulation: Consequences for future self. Social and personality
psychology compass, 7(2), 115-127. doi:10.1111/spc3.12011
Steel,
P. (2007). The nature of procrastination: a meta-analytic and theoretical
review of quintessential self-regulatory failure. Psychological
bulletin, 133(1), 65-94. https://doi.org/10.1037/0033-2909.133.1.65
Steel,
P., & Ferrari, J. (2013). Sex, education and procrastination: An
epidemiological study of procrastinators’ characteristics from a global
sample. European journal of personality, 27(1), 51-58. https://doi.org/10.1002/per.185

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