A expansão das
plataformas digitais transformou profundamente a relação da sociedade com o
jogo. O que antigamente estava associado a casinos físicos e apostas
ocasionais, passou a estar disponível 24 horas por dia através de aplicações e
plataformas online acedidas através de dispositivos eletrónicos. Esta
acessibilidade permanente ao jogo, tem vindo a contribuir para que muitos
indivíduos desenvolvam uma adição, clinicamente denominada de jogo patológico ou
ludopatia – perturbação comportamental, com impactos psicológicos, sociais e
económicos significativos (American Psychiatric Association [APA], 2022).
Nos últimos anos,
investigadores e organizações de saúde têm alertado para o aumento das apostas
online, especialmente entre jovens adultos. O jogo online está associado a
maior risco de comportamentos problemáticos devido à sua acessibilidade
contínua, anonimato e rapidez das apostas, ditos fatores de risco tendem a
contribuir especificamente para o desenvolvimento de comportamentos aditivos (Gainsbury,
2015; Ghelfi et al., 2024).
Recompensas
instantâneas, notificações constantes e reforços intermitentes são elementos
que estimulam os circuitos de recompensa cerebral ligados à dopamina,
aumentando a probabilidade de repetição compulsiva do comportamento (Potenza,
2008; Clark, 2010).
Sinais de alerta a considerar
(American Psychiatric Association [APA], 2022)
- Necessidade de jogar com elevadas quantias de dinheiro com a finalidade de excitação;
- Inquietação ou irritabilidade quando tenta reduzir ou parar de jogar;
- Tentativas de parar o jogo mal sucedidas devido à perda de controlo;
- Preocupações frequentes com o jogo;
- Jogar frequentemente quando está angustiado/a ou sente necessidade de experienciar sensação de alívio;
- Utilizar o dinheiro destinado ao pagamento de despesas relevantes para jogar;
- Após perdas de dinheiro, voltar a jogar para o recuperar;
- Mentir para encobrir o seu envolvimento com o jogo;
- Prejudicar ou perder relações significativas devido ao jogo;
- Depender de terceiros para saldar dívidas causadas pelo jogo.
Quais são as causas do jogo
patológico?
A adição ao jogo
raramente resulta de uma única causa. Trata-se de um fenómeno multifatorial que
envolve aspetos psicológicos, sociais, biológicos, económicos e culturais. Estudos
demonstram que impulsividade, depressão, ansiedade e dificuldades de regulação
emocional estão fortemente associados ao desenvolvimento do jogo patológico, embora
nem sempre esteja claro se estas condições antecedem o problema ou surgem em
consequência dele (Lorains et al., 2011). O jogo pode ser utilizado como
mecanismo temporário de escape ao stress, problemas financeiros ou sofrimento
emocional. Contudo, a tentativa de recuperar perdas financeiras frequentemente
conduz ao agravamento da situação.
A exposição contínua à publicidade, a influência social e a normalização das apostas em eventos desportivos contribuem também para o aumento do risco. A publicidade ao jogo está associada ao aumento da intenção de jogar e à normalização do comportamento de aposta, sobretudo em jovens (Bouguettaya et al., 2020; Lopez-Gonzalez et al., 2018).
Impactos do jogo patológico
As consequências da
adição ao jogo podem ser profundas e vão muito além das perdas financeiras. No
plano psicológico, estudos demonstram forte associação com:
- Ansiedade e depressão;
- Culpa e sofrimento emocional;
- Isolamento social;
- Perda de controlo comportamental.
Em casos mais graves, o
jogo patológico está associado à ideação suicida e ao aumento do risco de
suicídio (Karlsson & Håkansson, 2018). Do ponto de vista económico, pode
conduzir a endividamento severo, recurso a crédito excessivo, perda de
património e, em alguns casos, comportamentos ilícitos.
Esta problemática afeta não apenas o indivíduo, mas também famílias, relações conjugais e desempenho profissional, configurando um problema de saúde pública.
Prevenção – Responsabilidade Social
Perante o crescimento
do fenómeno, vários países têm reforçado a regulação das apostas online,
incluindo Portugal. No entanto, estudos indicam que as medidas atuais podem não
ser suficientes face à intensidade da publicidade e às estratégias digitais de
retenção dos utilizadores (Lopez-Gonzalez et al., 2018). Entre as principais
estratégias de prevenção destacam-se:
- Educação para literacia digital;
- Campanhas públicas de sensibilização;
- Limitação da publicidade ao jogo;
- Implementação de limites de depósito e tempo de utilização;
- Acompanhamento psicológico especializado.
A terapia
cognitivo-comportamental (TCC) tem demonstrado eficácia significativa no
tratamento do jogo patológico, especialmente quando combinada com suporte
familiar e abordagem multidisciplinar (Cowlishaw et al., 2012).
Mais do que um problema individual, o jogo patológico constitui uma questão social, económica e de saúde pública. O seu combate exige tratamento clínico, políticas preventivas, regulação eficaz e maior consciencialização coletiva sobre os riscos associados ao jogo digital. Deste modo, se ao ler este artigo se identificou e pensa estar a sofrer esta problemática, procure ajuda de um/a psicólogo/a para o/a ajudar, não está sozinho/a.
Nem todos os indivíduos que padecem desta problemática têm consciência da mesma, neste sentido, se conhecer alguém que esteja a passar por dita situação, não hesite em procurar ajuda de um profissional especializado para que em conjunto possam delinear uma estratégia que ajude o indivíduo em questão.
Dra. Beatriz Santos
Referências Bibliográficas
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Psychiatric Association. (2022). Manual diagnóstico e estatístico de
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