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O Fenómeno do(a) Impostor(a)

 



Se já deu por si a sentir que é uma fraude ou incompetente no que faz (independentemente de haver evidências objetivas do contrário), se experiencia sentimentos de dúvida persistentes em relação às suas capacidades, se tem dificuldades a atribuir a si mesmo(a) o resultado dos seus sucessos laborais, ou se vive com o medo de ser exposto(a) ou descoberto(a) a qualquer instante por um erro (muitas vezes mínimo), este texto é para si.

Falo-lhe do Fenómeno do(a) Impostor(a) (mais comumente conhecido por “Síndrome do(a) Impostor(a)”) que, muito embora não seja uma perturbação mental nem configure um diagnóstico clínico, é uma experiência psicológica que envolve pensamentos, emoções e comportamentos que podem colocar em risco a sua saúde mental, a sua qualidade de vida e o seu desempenho laboral.

O Fenómeno do(a) Impostor(a) foi introduzido na literatura (Clance & Imes, 1978) como uma experiência interna de “falsidade intelectual”: quase como se estivéssemos plenamente convencidos que não somos genuinamente competentes e que os outros vão acabar por descobrir isso, mesmo que as evidências apontem para o contrário. Algumas emoções associadas são o medo, a angústia, a culpa ou a vergonha, muitas vezes sentidas em relação à performance no trabalho e à percepção de capacidade/competência (McElwee & Yurak, 2010). Estudos indicam que tanto o sexo masculino como o feminino podem ser visados, embora pareça existir uma prevalência para a manifestação do Fenómeno do(a) Impostor(a) em pessoas do sexo feminino (e.g. Beesley et al., 2024) e que as manifestações podem ocorrer em diferentes fases de vida: desde a adolescência até à idade adulta (incluindo pessoas em estados avançados da sua carreira profissional); ou seja: não é exclusivo de estudantes ou profissionais em início de carreira (naturalmente com pouca experiência e, eventualmente, menos segurança nas suas intervenções) (e.g. Bravata, 2019).

Existem fatores que podem predispor ao desenvolvimento desde Fenómeno do(a) Impostor(a), tais como perfeccionismo desadaptativo (e.g. Vergauwe et al., 2015), neuroticismo (como tendência para experienciar estados emocionais de valência mais negativa, tais como a ansiedade, a preocupação ou a insegurança) (e.g. Sheveleva, 2023), medo de falhar e baixa autoestima (e.g. Neureiter & Traut-Mattausch, 2016), ansiedade (e.g. Bodó et al., 2026) e até mesmo estilos de parentalidade com que fomos criados (e.g. Want & Kleitman, 2006).

Como resultado, podemos ter um comprometimento geral da qualidade de vida relacionada com o trabalho, dividida em pelo menos três vertentes:

- Fatores intrapessoais – Burnout, exaustão emocional relacionada com o trabalho, stress, menos motivação para a liderança;

- Fatores organizacionais - desenvolvimento de uma tendência para envolvimento excessivo no trabalho (ser, como conhecemos comumente, um workaholic), índices menores de satisfação com o trabalho, menor compromisso organizacional afetivo, redução da criatividade; e

- Fatores interpessoais: conflitos trabalho-família, aumento de comportamentos de tentativas de gestão das impressões de terceiros.

 

A que sinais devo permanecer atento(a)?

Existem alguns sinais a que deve estar atento(a), cuja presença não declara diretamente que sofre do Fenómeno do(a) Impostor(a) por si só, mas que podem ser pequenos indícios que merecem a sua atenção. Estes sinais, aliados a uma avaliação detalhada da sua intensidade, do contexto em que aparecem e de outras variáveis psicológicas (por exemplo, história de vida, pensamentos ou comportamentos associados e grau de comprometimento geral), podem ajudar a determinar a melhor estratégia terapêutica a ser usada em caso de necessidade. Esteja especialmente atento(a) se:

 - Perante uma tarefa ou desafio no trabalho experienciar de forma sistemática e intensa sentimentos de dúvida, ansiedade e medo de falhar;

- Responder aos sentimentos acima descritos com preparação excessiva (por exemplo, revendo mais vezes do que as necessárias os conteúdos que produz para garantir uma margem de erro menor, ou se, pelo contrário, tem uma resposta de procrastinação (adiamento intencional das tarefas por fatores de índole emocional), geralmente seguida de uma fase intensa de trabalho, como forma de compensar atrasos);

- Costumar minimizar as suas conquistas, atribuindo os seus sucessos à “sorte”, ao “acaso” ou à “simpatia” de terceiros;

- Costumar atribuir as coisas que correm mal a incompetência da sua parte;

- Sentir dificuldades em estabelecer padrões realistas acerca do seu trabalho, ou não conseguir fazer a distinção entre fazer as coisas “bem” ou fazer as coisas de forma “perfeita”;

- Notar que existe uma vigilância constante em relação ao julgamento de terceiros acerca de si e da sua competência, com medo de ser exposto(a)/descoberto(a) como uma fraude (independentemente do seu desempenho objetivo).

 

Quando pedir ajuda?

O Fenómeno do(a) Impostor(a) pode comprometer o seu bem-estar. Se identificar alguns dos sinais descritos acima, ou suspeitar que este está a interferir de forma significativa na sua vida, por exemplo, ao impedir de aceitar novas oportunidades, a causar sofrimento no seu dia a dia, ou a coexistir com sintomas de ansiedade ou depressão, é recomendado que peça ajuda especializada de um psicólogo(a). O verdadeiro cuidado não está apenas em tentar garantir que tem o seu trabalho sob controlo ou que as percepções dos outros acerca de si são congruentes ou não com o que sente: cuidar da sua saúde mental é fundamental para uma vida mais feliz e equilibrada. 


Dra. Sara Morgado

 

Referências Bibliográficas:

Beesley, B. A., Vece, N. G. & Johnson-Ulrich, Z. (2024). Undergraduate importer syndrome rates between gender and field of study. Journal of Psychological Research, 29(2), 2325-7342. https://doi.org/10.24839/2325-7342.JN29.2.86

Bodó, V., Urbán, R., Élo, Z., Demetrovics, Z. & Kun, B. (2026). Impostor phenomenon beyond self-esteem, anxiety, and perfectionism: Factor structure and correlates. Personality and Individual Differences, 257, 1-10.  https://doi.org/10.1016/j.paid.2026.113774

Bravata, D. M., Watts, S. A., Keefer, A. L., Madhusudhan, D. K., Taylor, K. T., Clark, D. M., Nelson, R. S., Cockley, K. O. & Hagg, H. K. (2019). Prevalence, predictors and treatment of impostor syndrome: A systematic review. Journal of Intern Medicine, 35(4), 1252-1275. DOI: 10.1007/s11606-019-05364-1

Clance, P. R. & Imes, S. (1978). The imposter phenomenon in high achieving women: Dynamics and therapeutic intervention. Psychotherapy Theory, Research and Practice, 15(3), 241-247.

McElwee, R. O. & Yurak, T. J. (2010). The phenomenology of the Impostor Phenomenon. Individual Differences Research, 8(3), 184-197. doi:10.65030/idr.08019

Neureiter, M. & Traut-Mattausch, E. (2016). An inner barrier to career development: Preconditions of the impostor phenomenon and consequences for career development. Frontiers in Psychology, 7(48), 1-15. doi: 10.3389/fpsyg.2016.00048

Sheveleva, M. S., Permyakova, T. M. & Kornieko, D. S. (2023). Perfectionism, the Impostor Phenomenon, self-esteem, and personality traits among Russian college students. Psychology in Russia, 16(3), 132-148. doi: 10.11621/pir.2023.0310

Vergauwe, J. Wille, B. & Feys, M. (2015). Fear of being exposed: The trait-relatedness of the Impostor Phenomenon and its relevance in the work context. Journal of Business Psychology, 30(3), 565-58. DOI:10.1007/s10869-014-9382-5

Want, J., & Kleitman, S. (2006). Imposter Phenomenon and Self-Handicapping: Links with Parenting Styles and Self-Confidence. Personality and Individual Differences, 40, 961-971. https://doi.org/10.1016/j.paid.2005.10.005




 

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