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Será que “feito” é melhor do que “perfeito”?

 


A ideia de que “feito é melhor do que perfeito” tem vindo a ganhar popularidade, sobretudo em contextos de produtividade e desenvolvimento pessoal. No entanto, esta afirmação, embora útil, pode simplificar em demasia um fenómeno psicológico complexo - designado de perfeccionismo -, que envolve padrões de pensamento, emoções e comportamentos profundamente enraizados na identidade de quem o experiencia.

O perfeccionismo é geralmente entendido como um traço de personalidade multidimensional, que se pode manifestar através de um padrão persistente de autoexigência elevada e rígida (Vicent et al., 2023; Egan et al., 2011). O perfeccionismo não é, por si só, um traço negativo. Pode incluir uma dimensão mais adaptativa – Perfectionism Strivings –, como a definição de objetivos elevados, padrões de qualidade, atenção ao detalhe e orientação para a melhoria contínua (Vicent et al., 2023). No entanto, quando se torna rígido ou excessivo, pode levar a uma preocupação excessiva com erros, ao medo da avaliação negativa e à tendência para associar o valor pessoal ao desempenho – Perfectionism Concerns –, podendo transformar-se numa fonte significativa de sofrimento emocional (Stoeber & Otto, 2006). Deste modo, o sofrimento não está apenas no que se faz, mas na forma como se avalia o próprio desempenho, podendo manter um ciclo de pressão, insegurança e desgaste emocional ao longo do tempo.

A nível cognitivo, a dimensão Perfectionism Concerns é recorrentemente associada a uma tendência para colocar as expectativas dos outros em primeiro lugar (autossacrifício) e a uma voz interna muito crítica e difícil de satisfazer (hipercriticismo). Quando estes padrões se combinam, a pessoa pode sentir que tem de corresponder a expectativas muito altas — suas e dos outros (reconhecimento) — e, mesmo quando se esforça ao máximo, raramente sente que é o suficiente. Pequenos erros poderão ganhar um peso desproporcional, os sucessos são desvalorizados (ou até desconsiderados) e o esforço pode intensificar-se numa tentativa de compensar a “insuficiência” percebida (Young et al., 2003). A investigação tem mostrado que a dimensão Perfectionism Concerns está associada a maior vulnerabilidade psicológica, incluindo sintomas de ansiedade, depressão e burnout (Egan et al., 2011; Limburg et al., 2017).

Mais do que substituir “perfeito” pelo “feito”, pode ser útil desenvolver uma relação mais protetora com o desempenho e com o erro. Algumas estratégias incluem:

  • Reconhecer padrões internos, identificando momentos em que a autocrítica se intensifica;
  • Diferenciar valor pessoal de desempenho, partindo do pressuposto de que o que fazemos não define, por si só, quem somos;
  • Praticar autocompaixão, respondendo ao erro com compreensão em vez de punição, com vista à promoção de uma melhor regulação emocional;
  • Ajustar expectativas, considerando que nem todas as tarefas exigem o mesmo nível de investimento ou perfeição;
  • Reconhecer limites e necessidades próprias, com vista a equilibrar o que dá aos outros e o cuidar de si.

Apesar de algumas destas estratégias poderem ser úteis, há situações em que o perfeccionismo passa a interferir significativamente na qualidade de vida. Alguns sinais de alerta incluem:

  • Ansiedade constante associada ao desempenho;
  • Dificuldade em concluir tarefas ou tendência para procrastinar;
  • Autocrítica intensa e persistente;
  • Ruminação após o evento;
  • Dificuldade na tomada de decisão, bloqueada pelo medo de errar;
  • Sensação de exaustão, já que o “desligar” pode ser vivido com culpa;
  • Impacto nas relações pessoais ou profissionais, devido à dificuldade em mostrar vulnerabilidade e pelo risco percebido de rejeição;
  • Impacto na autoestima, uma vez que fica associada ao desempenho.

 

Encontrar um equilíbrio entre compromisso, flexibilidade e autocuidado é um processo que se constrói ao longo do tempo — e que pode fazer uma diferença significativa na nossa saúde mental. Nestes casos, a psicoterapia pode ser um recurso importante.

Se se identifica com estas dinâmicas, procurar ajuda profissional pode ser um passo determinante para compreender as origens destes padrões, trabalhar as estruturas cognitivas subjacentes e desenvolver formas mais flexíveis e saudáveis de lidar com a exigência, interna e externa.

Dr.ª Raquel Gonçalves

 

Referências

Egan, S. J., Wade, T. D., & Shafran, R. (2011). Perfectionism as a transdiagnostic process: a clinical review. Clinical psychology review, 31(2), 203–212. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2010.04.009

Limburg, K., Watson, H. J., Hagger, M. S., & Egan, S. J. (2017). The Relationship Between Perfectionism and Psychopathology: A Meta-Analysis. Journal of clinical psychology, 73(10), 1301–1326. https://doi.org/10.1002/jclp.22435

Stoeber, J., & Otto, K. (2006). Positive conceptions of perfectionism: approaches, evidence, challenges. Personality and social psychology review : an official journal of the Society for Personality and Social Psychology, Inc, 10(4), 295–319. https://doi.org/10.1207/s15327957pspr1004_2

Vicent, M., Gonzálvez, C., Quiles, M. J., & Sánchez-Meca, J. (2023).
Perfectionism and binge eating: A systematic review and meta-analysis.
Journal of Eating Disorders, 11, 101. https://doi.org/10.1186/s40337-023-00817-9

Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema therapy: A practitioner’s guide. Guilford Press.

 


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