De acordo com a World Health Organization, 2026, em Portugal, 26% da população é composta por adultos mais velhos, com idade superior a 65 anos. Estima-se que esta percentagem da população continue a crescer.
À medida que a ciência evolui, a esperança média de vida vai crescendo. Mas o envelhecimento populacional levanta novos desafios, e alguns deles, no âmbito da Saúde Mental.
O envelhecimento é um processo que começa à nascença, marcado por alterações fisiológicas, físicas, psicológicas, sociais, ocupacionais, e que por vezes, pode causar preocupação.
Uma vez que é comum ver o envelhecimento de um ponto de vista negativo, tendemos a esquecer os pontos positivos da idade, falhamos em reconhecer sinais de preocupação ou até os desconsideramos por achar que são normais.
No entanto, como podemos ver no Global Burden of Disease, as perturbações mentais representam a 2ª causa de perda de saúde para os portugueses com 60 ou mais anos de idade (IHME, 2025). Isto significa que as perturbações mentais são uma das principais causas que limitam a qualidade de vida dos adultos mais velhos.
Quando se fala de perturbações mentais, não nos referimos exclusivamente aos processos demenciais. Ainda que se inclua neste tópico, porque a demência não faz parte de um processo de envelhecimento normativo, devemos também estar atentos a questões emocionais; até porque estas por vezes podem assemelhar-se à sintomatologia típica da demência (pseudodemência). Alguns dos desafios mais comumente enfrentados por esta população em específico, e que constituem possíveis fatores de risco para estas doenças (e.g Tobin et al., 2025), são:
· A reforma,
· O luto e/ou viuvez,
· Alterações fisiológicas (como a nível sexual ou cognitivo),
· O isolamento social,
· A doença e comorbilidade (e consequentemente a polimedicação)
Por estes desafios serem comuns, não significa que ter dificuldades duradouras e significativas com eles seja algo normal do processo de envelhecimento. Se as dificuldades causarem grande mal-estar e forem prolongadas, o processo de envelhecimento é negativamente afetado (e.g. Dudzilah et al., 2026).
As doenças são responsáveis por um envelhecimento mais rápido, através de dano celular, inflamação e marcado pela diminuição de capacidades. As doenças mentais não são exceção.
Torna-se importante saber distinguir sintomas normais de envelhecimento de sintomas patológicos, pelo que se seguem alguns exemplos:
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Normal |
Patológico |
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Esquecer uma palavra, ou onde colocou um objeto |
Esquecimentos comuns que dificultam ou impedem o funcionamento normal (deixar o fogão ligado, repetir a mesma questão) |
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Levar mais tempo a processar ou aprender |
Confusão, dificuldade no planeamento ou resolução de problemas |
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Tristeza ou irritabilidade ocasional e ajustada |
Alterações súbitas de personalidade, tristeza e/ou irritabilidade permanente. |
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Acordar mais cedo, sono mais leve |
Insónia ou hipersónia |
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Reflexos mais lentos, sentidos reduzidos |
Quedas frequentes, andar instável, diminuição aguda de sentidos |
Apesar dos desafios até aqui mencionados, o processo de envelhecimento também traz aspetos positivos que não devem ser descurados. A experiência de vida que os adultos mais velhos possuem dão-lhes uma perspetiva sobre os desafios diferente, que pode ser protetora e fonte de maior satisfação com a vida, pelas aprendizagens e ferramentas construídas ao longo do seu percurso. Normalmente a sua personalidade e valores estão definidos e estáveis, pelo que tendem a experienciar maior satisfação com a vida, com relacionamentos mais significativos, e menor stress. Um envelhecimento saudável permite adaptar-se às circunstâncias, fazendo o melhor uso da sabedoria adquirida, para lidar com as alterações que podem apresentar-se como obstáculos (e.g. Jeste et al., 2025).
Na presença de sintomas patológicos ou dificuldades com o processo de envelhecimento, os profissionais de saúde qualificados, incluindo os psicólogos, podem ser um recurso essencial para a promoção de um envelhecimento mais saudável.
Bibliografia
Dudzilah, G., Adedeji, O. M., Markus, S. N., & Obioma, L. O. (2026). Distinguishing Normal Cognitive Aging From Pathological Decline: A Critical Review. Journal of Mental Health and Psychology, 1(1), 1-9. https://doi.org/10.69739/jmhp.v1i1.1531
Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME). (2025). GBD Compare Data Visualization. Seattle, WA: IHME, University of Washington. http://vizhub.healthdata.org/gbd-compare.
Jeste, D. V., Alexopoulos, G. S., Blazer, D. G., Lavretsky, H., Sachdev, P. S., & Reynolds, C. F. (2025). Wisdom, Resilience, and Well-Being in Later Life. Annual review of clinical psychology, 21(1), 33–59. https://doi.org/10.1146/annurev-clinpsy-081423-031855
Tobin, J., Black, M., Ng, J., Rankin, D., Wallace, J., Hughes, C., Hoey, L., Moore, A., Wang, J., Horigan, G., Carlin, P., McNulty, H., Molloy, A. M., & Zhang, M. (2025). Identifying comorbidity patterns of mental health disorders in community-dwelling older adults: a cluster analysis. BMC Geriatrics, 25(1), 235. https://doi.org/10.1186/s12877-025-05815-x
World Health Organization. (2026). Portugal: Health data overview for the Portuguese Republic. WHO Data. https://data.who.int/countries/620
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