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Nem Todo o Amor Cuida: Sinais de Uma Relação Abusiva

 


As relações interpessoais desempenham um papel central no nosso bem-estar emocional. Idealmente, devem ser um espaço de apoio, respeito e crescimento. No entanto, nem todas as relações seguem este padrão e por isso nem todas são relações saudáveis. Muitas vezes, de formas silenciosas e difíceis de identificar, surgem relações abusivas que podem causar danos profundos à saúde mental e emocional de quem as vivencia (DGS,2016). 

As relações abusivas podem assumir diferentes formas e nem sempre são visíveis. Pode envolver abuso emocional, verbal, físico, sexual e/ou financeiro (APAV, 2020; CIG, 2019). Quando se fala em relação abusiva, é comum pensar em situações extremas e evidentes. Contudo, na maioria das vezes o abuso pode surgir de forma muito subtil, através de comportamentos, palavras ou atitudes que geram mal-estar na relação e afetam a forma como se vê a si própria(o), por exemplo comentários como: “estás sempre a exagerar”; “ninguém vai gostar de ti como eu” (APAV, 2020; CIG, 2019). 

Raramente uma relação abusiva começa de forma evidente, o que pode tornar mais difícil reconhecê-la. Por isso, falar sobre este tema é essencial para compreender os sinais, o impacto psicológico e, sobretudo, para prevenir (DGS, 2016).

As relações abusivas muitas vezes seguem um padrão conhecido como ciclo de abuso (CIG, 2019). Após um episódio de conflito, pode surgir uma fase de reconciliação, frequentemente chamada de “lua de mel”, onde surgem pedidos de desculpa, promessas de mudança e demonstração de afeto (CIG, 2019). O período da reconciliação pode criar a sensação de que tudo está bem. Mas este ciclo repete-se ao longo do tempo e isso pode dificultar a saída da relação que deixa de parecer uma decisão simples e passa a parecer um risco (CIG, 2019).

Uma relação abusiva não é marcada apenas por momentos negativos. Muitas vezes, existem também momentos de afeto, carinho e promessas de mudança que criam esperança e reforçam a ligação emocional. Esta dinâmica pode levar à crença de que “a pessoa vai mudar” ou de que “talvez o problema seja meu”, dificultando o afastamento (APAV, 2020; CIG, 2019).

Existem alguns sinais que podem ajudar a identificar uma relação abusiva. Estes sinais, muitas vezes surgem de forma subtil e progressiva, podendo ser desvalorizados ou confundidos com comportamentos “normais” da relação (OPP, 2020; CIG, 2019),  tais como: 

⁃       Sentir-se frequentemente ansiosa(o), triste ou emocionalmente em baixo em consequência da relação;

⁃       Ter receio da reação do outro, evitando determinadas situações para prevenir conflitos;

⁃       Sentir que precisa de “medir” ou controlar constantemente o que diz ou faz;

⁃       Sentir-se desvalorizada(o), inferiorizada(o) ou alvo de crítica constante;

⁃       Afastar-se progressivamente de pessoas importantes na sua vida, como familiares, amigos ou rede de suporte;

⁃       Experienciar sentimentos de culpa frequentes, mesmo na ausência de motivos claros; 

⁃       Identificar comportamentos de controlo disfarçados de preocupação, proteção ou cuidado;

⁃       Sentir que as suas opiniões, emoções ou necessidades são ignoradas ou invalidadas;

⁃       Apresentar dúvidas constantes sobre si própria(o) como: “será que estou a exagerar”;

⁃       Sentir dificuldade em ser autêntica(o) na relação, ajustando o comportamento para evitar reações negativas do(a) outro(a).

Estar envolvida(o) numa relação abusiva pode influenciar profundamente a forma como se vê e vive o dia a dia. Podem surgir algumas mudanças como (OPP, 2020): 

⁃       Diminuição da autoestima- pensamentos como: “será que tenho razão?” ou “será que o problema sou eu?”, principalmente quando a outra pessoa desvaloriza constantemente a sua opinião;

⁃       Ansiedade e medo da reação do outro- estado de alerta constante para evitar conflitos ou reações do outro, o que leva a evitar falar de certos temas ou a mudar comportamentos;

⁃       Sentimento de culpa- sentimento de culpa mesmo em situações em que não tem responsabilidade ou não é só sua. Sentir a responsabilidade de pedir desculpa para evitar o conflito;

⁃       Confusão emocional- dificuldade em perceber o que é aceitável numa relação, por exemplo, justificando comportamentos de desrespeito com “às vezes ele(a) é carinhoso(a);

⁃       Isolamento- afastamento de amigos, família ou atividades que antes eram significativas, porque a outra pessoa não gosta;

⁃       Perda de identidade- sensação de deixar de se reconhecer aos poucos, como por exemplo, mudar a sua forma de ser ou deixar de fazer o que gosta em detrimento das vontades e gostos do outro;

⁃       Diminuição da confiança em si própria(o);

⁃       Medo de ficar sozinha(o) ou de não ser compreendida(o). 

Nem sempre conseguimos identificar ou evitar uma relação abusiva desde o começo. Ainda assim, é possível desenvolver algumas estratégias que ajudam a proteger o bem-estar emocional e a prevenir o envolvimento ou a permanência em dinâmicas abusivas. Como por exemplo:

⁃       Ouvir e valorizar o próprio desconforto, mesmo quando não consegue explicar bem o que sente;

⁃       Reconhecer que sentimentos de medo, dúvida ou ansiedade numa relação não devem ser ignorados;

⁃       Valorizar o respeito, a segurança e a reciprocidade como bases essenciais de uma relação;

⁃       Definir limites claros como por exemplo, “não me sinto confortável com isso” e esperar que sejam respeitados;

⁃       Estar atenta(o) a comportamentos de controlo, como por exemplo, exigir saber onde está e com quem está ou comportamentos de desvalorização;

⁃       Cuidar da autoestima e do sentido de valor pessoal.

Nenhuma relação saudável se constrói com base no medo, na dúvida ou no controlo. Se se revê em alguma destas situações procure ajuda. Uma relação deve ser um lugar seguro para sermos quem somos com respeito.

 

Referências

Associação Portuguesa de Apoio à Vítima. (2020). Folha informativa: Violência no namoro. https://apav.pt/wp-content/uploads/2024/02/FolhaInformativa_VNamoro_2020.pdf

Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. (2019). Prevenção da violência no namoro em contexto universitário. https://www.cig.gov.pt/wp-content/uploads/2019/09/Preven%C3%A7%C3%A3o-da-viol%C3%AAncia-no-namoro-em-contexto-univers.pdf

Direção-Geral da Saúde. (2016). Violência interpessoal: Abordagem, diagnóstico e intervenção nos serviços de saúde (2ª ed.). https://platform.who.int/docs/default-source/mca-documents/policy-documents/guideline/PRT-GBV-19-04-GUIDELINE-2017-prt-Referencial-Tecnico-Violencia-Interpessoal-Abordagem-Diagnostico-e-Intervencao-nos-Servicos-de-Saude.pdf

Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2020). Violência emocional e psicológica: Documento para psicólogos e outros profissionais de saúde. https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/violencia_emocional_psicologica_doc_para_psis_e_outros_profissionais_de_saude.pdf


   Dra. Joana Dias

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