Avançar para o conteúdo principal

Dissociação e Perturbações Dissociativas

 


Já alguma vez sentiu que o mundo à sua volta parecia irreal ou sentiu-se desligado dos seus pensamentos, emoções e sensações corporais? Estas experiências fazem parte do fenómeno da dissociação e podem ser profundamente perturbadoras, sobretudo quando despertam a sensação de perda de controlo. Quando estas se tornam frequentes podem comprometer o funcionamento diário, como tal, compreender estes fenómenos é essencial para reconhecer o que está a acontecer e procurar a intervenção adequada.

Dissociação: o que é?

    A dissociação é definida como uma interrupção ou desconexão entre pensamentos, emoções, sensações e outros processos mentais que normalmente funcionam de forma integrada (American Psychiatric Association [APA], 2022; Boyer, Caplan, & Edwards, 2022). Trata-se de um fenómeno humano comum, isto é, todos experienciámos algum grau de dissociação, que pode surgir ao longo de um contínuo que vai de manifestações benignas a estados mais perturbadores (Boyer, Caplan, & Edwards, 2022; Lyssenko, et al., 2018). No extremo mais ligeiro situam-se experiências quotidianas, como divagar nos pensamentos ou conduzir em “piloto automático”. Estas formas de dissociação são geralmente inofensivas e mantêm-se sob controlo voluntário (Boyer, Caplan, & Edwards, 2022; Lyssenko, et al., 2018).

    No extremo mais severo da dissociação, surgem fenómenos associados ao trauma      que, inicialmente, podem funcionar como proteção perante experiências emocionalmente avassaladoras (Boyer, Caplan, & Edwards, 2022). Nestes casos, a dissociação é ativada de forma involuntária, podendo ocorrer tanto em adultos como em crianças (Boyer, Caplan, & Edwards, 2022). As crianças são particularmente vulneráveis por não possuírem recursos cognitivos ou estratégias de coping desenvolvidas. Sem suporte adequado dos cuidadores, a dissociação permite afastar-se mentalmente da situação traumática e reduzir a dor imediata. Contudo, quando se torna a principal forma de lidar com eventos catastróficos ou traumas repetidos, este mecanismo torna-se rígido e automático, interferindo com o funcionamento psicológico ao longo do tempo (Boyer, Caplan, & Edwards, 2022).

Perturbações dissociativas

A American Psychiatric Association (2022) identifica e caracteriza diferentes subtipos de perturbações dissociativas, de entre as quais se destacam:

a)   Perturbação de despersonalização/desrealização – caracteriza-se por episódios persistentes de despersonalização (sentir-se desligado do próprio corpo ou sentido de si) e/ou de desrealização (perceção de irrealidade do ambiente). A pessoa pode apresentar apenas um destes fenómenos ou ambos.

 

b) Amnésia dissociativa – refere-se à incapacidade de recordar informação autobiográfica para além do esquecimento normal. Pode assumir a forma de amnésia localizada (perda de memória de um evento ou período específico), seletiva (recordação parcial, com lacunas nos aspetos mais perturbadores) ou generalizada (perda extensa da identidade ou da história de vida). A forma localizada é a mais comum, enquanto a generalizada é rara.

 

c)     Perturbação dissociativa de identidade – é a forma mais grave das perturbações dissociativas e envolve duas ou mais identidades ou partes de personalidade, acompanhada de episódios recorrentes de amnésia. As pessoas com esta perturbação podem experienciar intrusões no funcionamento consciente, como ouvir vozes, ações ou discursos dissociados e pensamentos ou impulsos intrusivos. Podem também ocorrer alterações marcadas no sentido de identidade, incluindo mudanças em atitudes, preferências ou a sensação de que o corpo ou as ações não lhes pertencem. São ainda frequentes distorções percetivas, como episódios de despersonalização ou desrealização, que podem ocorrer, por exemplo, durante comportamentos autolesivos.

Fatores de risco, implicações e tratamentos

    As perturbações dissociativas tendem a surgir após experiências traumáticas significativas (Boyer, Caplan, & Edwards, 2022; Lyssenko, et al., 2018). Entre os principais fatores de risco incluem-se o trauma precoce, a negligência e o abuso sexual, físico ou emocional, bem como outras adversidades acumuladas na infância. A exposição repetida a traumas ou a situações extremas, como tortura ou encarceramento prolongado, também aumenta substancialmente o risco (APA, 2023; Boyer, Caplan, & Edwards,2022; Lyssenko, et al., 2018). Além disso, os sintomas dissociativos estão associados a um risco acrescido de revitimização, incluindo agressão sexual e violência nas relações íntimas, bem como, níveis mais elevados de dissociação relacionam-se também com maior gravidade da ideação suicida e maior probabilidade de tentativas de suicídio (e.g., Boyer, Caplan, & Edwards, 2022).
    A dissociação é reconhecida como um processo transdiagnóstico por ocorrer em múltiplas perturbações, incluindo stress crónico, trauma, perturbações de personalidade, depressivas, alimentares, de pânico, de ansiedade, entre outros (e.g., Gentile, Snyder, & Gillig, 2014; Lewis, et al.,2021; Lyssenko, et al., 2018).

        O tratamento das perturbações dissociativas pode envolver a integração de várias abordagens psicoterapêuticas, incluindo modelos Psicodinâmicos, Cognitivo-Comportamentais, Terapia Comportamental Dialética, Internal Family Systems – IFS e Eye Movement Desensitization and Reprocessing – EMDR, (e.g., Foote, & Van Orden, 2016; Gentile, Snyder, & Gillig, 2014). Relativamente à medicação, atualmente, não existe evidência científica robusta que suporte a eficácia de qualquer fármaco especificamente dirigido ao tratamento das perturbações dissociativas, incluindo a despersonalização e a desrealização. Contudo, a medicação pode ser necessária para tratar sintomas associados ou comorbilidades, como ansiedade, depressão (e.g., Černis, et al., 2024; Gentile, Snyder, & Gillig, 2014).

    Se estiver a experienciar sintomas de dissociação, é importante que procure a ajuda junto de um profissional de saúde mental. Assim como acontece noutras condições de saúde mental, procurar ajuda logo que os sintomas surgem pode reduzir significativamente os impactos desta condição na sua vida diária.

Referências

American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.). https://doi.org/10.1176/appi.books.9780890425787

Boyer, S. M., Caplan, J. E., & Edwards, L. K. (2022). Trauma-related dissociation and the dissociative disorders: Neglected symptoms with severe public health consequences. Delaware journal of public health, 8(2), 78–84. https://doi.org/     10.32481/djph.2022.05.010

Černis, E., Antonović, M., Kamvar, R., Perkins, J., & The Transdiagnostic DPDR Project Lived Experience Advisory Panel. (2025). Depersonalisation-derealisation as a transdiagnostic treatment target: A scoping review of the evidence in anxiety, depression, and psychosis. Frontiers in Psychology, 16, 1531633. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2025.1531633

Foote, B., & Van Orden, K. (2016). Adapting dialectical behavior therapy for the treatment of dissociative identity disorder. American journal of psychotherapy, 70(4), 343-364.

Gentile, J. P., Snyder, M., & Gillig, P. M. (2014). Stress and trauma: Psychotherapy and pharmacotherapy for depersonalization/derealization disorder. Innovations in clinical neuroscience, 11(7-8), 37-41.

Lewis, Y. D., Kapon, S., Enoch-Levy, A., Yaroslavsky, A., Witztum, E., & Stein, D. (2021). Dissociation and suicidality in eating disorders: The mediating function of body image disturbances, and the moderating role of depression and anxiety. Journal of clinical medicine, 10(17), 4027.  https://doi.org/10.3390/jcm10174027

Lyssenko, L., Schmahl, C., Bockhacker, L., Vonderlin, R., Bohus, M., & Kleindienst, N. (2018). Dissociation in psychiatric disorders: A meta-analysis of studies using the dissociative experiences scale. American Journal of Psychiatry, 175(1), 37-46. https://doi.org/10.1176/appi.ajp.2017.17010


Dra. Jacqueline Ferreira




Comentários

Mensagens populares deste blogue

Desafios emocionais no Natal: Como proteger a sua saúde mental

  Desafios emocionais no Natal: Como proteger a sua saúde mental Como o stress se manifesta durante as festividades Embora a época festiva do Natal e Ano Novo seja frequentemente retratada como um período de alegria e união, para muitas pessoas representa uma fonte significativa de stress adicional. As exigências acumuladas podem transformar estas semanas em algo esgotante, em vez de reparador. O stress festivo pode surgir de formas variadas, afetando tanto o corpo como a mente.  Nem todos o sentem da mesma forma ou com a mesma duração : para alguns, concentra-se na semana frenética antes do Natal; para outros, estende-se por toda a temporada de festas.  O stress durante as festas manifesta-se frequentemente através de sintomas emocionais como: Irritabilidade e impaciência com os outros; Preocupação constante ou ansiedade; Apreensão e uma sensação de "dread" (temor) perante os eventos próximos. Além disso, também se revela muitas vezes através de sintomas físicos , com ...

Autocrítica, a Voz (in)satisfeita

  Muitas pessoas acreditam que, ao serem muito exigentes e críticas consigo próprias, conseguem manter o foco, evitar erros ou alcançar melhores resultados. No entanto, quando a autocrítica se torna constante e demasiado rígida, deixa de funcionar como motivação e começa a gerar ansiedade e mal‑estar. Reconhecer este padrão é um passo importante para desenvolver uma relação mais equilibrada e compassiva consigo mesmo . O que é a autocrítica A autocrítica pode ser entendida como um padrão de avaliação interna marcado por julgamentos negativos, exigências elevadas e uma postura interna punitiva (ex., Wakelin, Perman, & Simonds, 2022; Zaccari, et al 2024). Envolve um diálogo interno hostil , no qual a pessoa julga negativamente as próprias ações, pensamentos, emoções e identidade, gerando sentimentos de inadequação e desvalorização pessoal (ex., “não sou suficiente”, “devia ter feito melhor”, “sou uma parva”, etc.,). Porque é que nos criticamos? A autocrítica é um padrão de c...

Inteligência Emocional na Docência: Estratégias para a promoção da Saúde Mental no contexto escolar

  A docência é, indiscutivelmente, uma profissão de elevada exigência emocional. Todos os dias, Professores e Educadores lidam com situações que exigem uma capacidade empática, de autocontrolo, resiliência e assertividade. Ser professor implica mais do que o domínio dos conteúdos . A prática docente é pautada por diversos fatores geradores de stress e sobrecarga, tais como: ⮚        Gestão de comportamentos desafiantes em sala de aula; ⮚        Pressão de familiares e sociais; ⮚        Falta de valorização profissional; ⮚        Conflitos com colegas ou direção; ⮚        Excesso de tarefas administrativas; A ausência de estratégias adequadas de regulação emocional pode levar a um estado de exaustão , caracterizado por sintomas como cansaço extremo, irritabilidade, isolamento social e sentimentos de inutilidade. Neste co...