É comum que, perante emoções difíceis, tentemos
imediatamente compreender o que nos leva àquele estado – tendemos a procurar
explicações, a analisar cenários, a antecipar consequências e a procurar
soluções. Quando se está triste, pergunta-se porquê. Quando se está ansioso,
tenta-se conter ou controlar as situações e as respostas do corpo. Quando se
sente magoado, procura-se justificações para o comportamento dos outros.
Vivemos numa cultura que valoriza a racionalidade, a
produtividade e o autocontrolo. Ser "forte", "aguentar" ou
"seguir em frente" é frequentemente visto como um sinal de
maturidade. Talvez um dos mitos mais difíceis de desafiar seja a ideia de que “mostrar
emoções nos torna frágeis”. Crescemos em contextos onde as emoções não eram
necessariamente proibidas, mas também não eram plenamente acolhidas. Frases
como "não chores", "não é motivo para estares assim",
"tens de ser forte", “já passou” ou "há quem esteja pior"
podem transmitir, ainda que de forma involuntária, a ideia de que sentir
determinadas emoções é inadequado ou de que não existe legitimidade para as
sentir. Ao longo do tempo, estas experiências influenciam a forma como
aprendemos a relacionar-nos com as nossas emoções ou a reconhecer as nossas necessidades
emocionais (Young et al., 2003; Dadomo et al., 2016). Uma pessoa pode saber
exatamente porque está triste após uma perda e, ainda assim, nunca se permitir
viver essa tristeza. Pode reconhecer que está cansada e continuar a ignorar a
necessidade de descanso. Pode perceber que se sente magoada numa relação e continuar
a dizer a si própria que "não vale a pena fazer disto um problema".
As emoções desempenham funções adaptativas importantes,
fornecendo informação relevante sobre o ambiente, as necessidades pessoais e os
comportamentos mais adequados em cada contexto (Kraiss et al., 2020; Madden
& Reynolds, 2021). Quando não aprendemos que as emoções são seguras,
tentemos a desenvolver estratégias para as afastar ou minimizar. Muitas pessoas
desenvolvem competências funcionais e adaptativas, como a capacidade de
resolver problemas, assumir responsabilidade sobre as situações ou cuidar dos
outros. No entanto, quando se tornam a resposta predominante para lidar com
experiências emocionais difíceis, podem tornar mais difícil reconhecer as próprias
necessidades emocionais, como sinais de sofrimento emocional, necessidade de
descanso e limites pessoais (Foa & Kozak, 1986) – a estes, poderão
associar-se sentimentos de sobrecarga, maior dificuldade em regular emoções e
menor capacidade de procurar a ajuda de que precisa.
Compreender uma emoção não é o mesmo que processá-la – inclui identificá-la, rotulá-la, perceber a sua origem e entender o seu significado. Assim, a regulação emocional envolve precisamente a capacidade de responder às emoções de forma flexível e adaptativa (Madden & Reynolds, 2021). As emoções contêm informação relevante sobre aquilo que valorizamos, sobre as nossas necessidades e sobre aquilo que pode requerer a nossa atenção. No entanto, para que essa informação possa ser utilizada, é necessário que a emoção seja reconhecida e vivida, em vez de simplesmente afastada ou ignorada.
Se costuma responder a situações de sofrimento
emocional com comportamentos de controlo ou racionalização, talvez valha a pena
perguntar-se a si mesmo:
"O que estou a sentir no meu corpo neste
momento?"
"Se não tentasse resolver isto imediatamente, como me
sentiria?"
Aprender a reconhecer e regular emoções é um processo
que se desenvolve ao longo do tempo, e esse processo começa quando deixamos de
tentar resolver imediatamente aquilo que primeiro precisa de ser sentido – tal
implica criar espaço para sentir a emoção, sobretudo quando a tendência
automática é para racionalizar ou controlar. Se se identifica com estas
dinâmicas, ou conhece alguém que se enquadre, considere a ajuda de um profissional
de saúde mental para o ajudar a desenvolver competências nesse sentido.
Referências
Dadomo, H., Panzeri,
M., Caponcello, D., Carmelita, A., Grecucci, A., & Schimmenti, A. (2016). Schema therapy for emotional
dysregulation: Theoretical implication and clinical applications. Frontiers in Psychology, 7,
Article 1987. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2016.01987
Foa, E. B., &
Kozak, M. J. (1986). Emotional processing of fear: Exposure to corrective
information. Psychological Bulletin, 99(1), 20–35.
Kraiss, J. T., ten Klooster, P. M., Moskowitz,
J. T., & Bohlmeijer, E. T. (2020). The relationship between emotion regulation and well-being in patients with
mental disorders: A meta-analysis. Comprehensive Psychiatry, 102,
152189. https://doi.org/10.1016/j.comppsych.2020.152189
Madden, L. O. B.,
& Reynolds, R. (2021). The process of emotional regulation. In The
Science of Emotional Intelligence. IntechOpen. https://doi.org/10.5772/intechopen.96195
Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E.
(2003). Schema
Therapy: A Practitioner's Guide. Guilford Press.
.jpg)
Comentários
Enviar um comentário