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O peso invisível da vergonha: do silêncio à compreensão

 


A vergonha é uma emoção pouco falada, mas profundamente sentida. Ao contrário da culpa, que tende a centrar-se num comportamento ("fiz algo errado"), a vergonha dirige-se à forma como a pessoa vê a sua própria identidade ("há algo de errado comigo"). Surge quando nos autoavaliamos de forma negativa e acreditamos que existe algo de inadequado ou indesejado em quem somos, influenciando também a forma como pensamos que os outros nos percecionam (Gilbert, 2014; Tangney & Dearing, 2002).

Todos nós experienciamos vergonha em algum momento da vida. Em níveis moderados, esta emoção tem uma função adaptativa: pode ajudar-nos a reconhecer quando ultrapassámos um limite, reparar um erro e preservar relações importantes. Por exemplo, depois de interromper repetidamente um amigo durante uma conversa, sentir vergonha pode motivar um pedido de desculpas e uma mudança de comportamento. No entanto, quando deixa de estar associada a situações específicas e passa a ser frequente, intensa e/ou persistente, tornando-se parte da forma como a pessoa se vê, pode contribuir para o sofrimento psicológico. Nestas situações, é comum existir medo do julgamento dos outros, autocrítica intensa, isolamento, dificuldade em aceitar elogios e um sentimento recorrente de inferioridade (Lear et al., 2022).

A vergonha resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais. Experiências repetidas de crítica, rejeição, humilhação, bullying, negligência emocional e/ou abuso tendem a contribuir para a construção de uma autoimagem negativa. (Gilbert, 2014). Com o tempo, algumas pessoas passam a acreditar que não são suficientemente boas, competentes ou merecedoras de aceitação. Estas crenças levam-nas a interpretar novas experiências de vida através desse filtro, reforçando uma perceção negativa de si próprias.

Esta emoção tende ainda a alimentar um ciclo difícil de quebrar. Uma experiência de fracasso, rejeição ou crítica pode desencadear vergonha, a par de outras emoções, como ansiedade ou tristeza, bem como pensamentos de autocrítica e medo da avaliação dos outros. Como consequência, é frequente que a pessoa evite situações sociais, deixe de pedir ajuda ou esconda as suas dificuldades. Embora este evitamento reduza temporariamente o desconforto, acaba por reforçar a vergonha, perpetuando o sofrimento psicológico. Neste sentido, a vergonha pode funcionar como um fator transdiagnóstico, aumentando a vulnerabilidade para diferentes problemas de saúde mental, nomeadamente depressão, ansiedade, trauma, baixa autoestima, comportamentos de evitamento, autoagressão e/ou ideação suicida (Lear et al., 2022; Sheehy et al., 2019).

Aprender a compreender e regular as nossas emoções é fundamental para promover o bem-estar psicológico e reduzir a probabilidade de desenvolver problemas de saúde mental. É importante reconhecermos a vergonha sem nos identificarmos completamente com ela, uma vez que esta emoção resulta da interação de múltiplos fatores, tanto internos como externos, e não define quem somos. Recorrer a relações seguras, nas quais seja possível partilhar experiências sem medo da rejeição e receber apoio para enfrentar esta emoção, constitui igualmente uma estratégia importante (Gilbert, 2014).

Identificar padrões de autocrítica excessiva e desenvolver autocompaixão, respondendo às próprias dificuldades com compreensão em vez de julgamento, são estratégias que podem contribuir para uma relação mais saudável com a vergonha. No entanto, nem sempre são fáceis de implementar. Nesse sentido, o acompanhamento psicológico constitui uma opção importante, permitindo uma avaliação cuidada e uma intervenção personalizada, adaptada às necessidades e dificuldades de cada pessoa (Wilson et al., 2019; Brown & Ashcroft, 2025; Luoma & Platt, 2015).

Não hesite em procurar ajuda psicológica se sentir que a vergonha está a condicionar a sua vida, não tem de a enfrentar sozinho/a. Com apoio adequado, é possível compreender a sua origem, reduzir o seu impacto e desenvolver uma relação mais compassiva consigo próprio/a.

Dra. Beatriz Santos

Referências Bibliográficas

Brown, N., & Ashcroft, K. (2025). The effectiveness of compassion focused therapy for the three flows of compassion, self-criticism, and shame in clinical populations: A systematic review. Behavioral Sciences, 15(8), 1031. https://doi.org/10.3390/bs15081031

Gilbert, P. (2014). The origins and nature of compassion focused therapy. British journal of clinical psychology, 53(1), 6-41. https://doi.org/10.1111/bjc.12043

Lear, M. K., Lee, E. B., Smith, S. M., & Luoma, J. B. (2022). A systematic review of self‐report measures of generalized shame. Journal of Clinical Psychology, 78(7), 1288-1330. https://doi.org/10.1002/jclp.23311

Luoma, J. B., & Platt, M. G. (2015). Shame, self-criticism, self-stigma, and compassion in acceptance and commitment therapy. Current opinion in Psychology, 2, 97-101. https://doi.org/10.1016/j.copsyc.2014.12.016

Sheehy, K., Noureen, A., Khaliq, A., Dhingra, K., Husain, N., Pontin, E. E., Cawley, R., & Taylor, P. J. (2019). An examination of the relationship between shame, guilt and self-harm: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review, 73, 101779. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2019.101779

Tangney, J. P., & Dearing, R. L. (2002). Shame and guilt. Guilford Press.

Wilson, A. C., Mackintosh, K., Power, K., & Chan, S. W. Y. (2019). Effectiveness of self-compassion related therapies: A systematic review and meta-analysis. Mindfulness, 10(6), 979–995. https://doi.org/10.1007/s12671-018-1037-6


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