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Perturbação da Ingestão Alimentar Compulsiva - O que é e quais os sinais de alerta




As perturbações do comportamento alimentar são condições de saúde complexas, que afetam mente e corpo. Dentro deste grupo, encontramos a Perturbação da Ingestão Alimentar Compulsiva (PIAC), que se caracteriza por episódios de ingestão alimentar em quantidades excessivas e inequivocamente superiores ao comum, num curto espaço de tempo e acompanhada de uma perceção de falta de controlo subjacente (American Psychiatric Association, 2022). Fatores biológicos, psicológicos e sociais estão na origem e manutenção da PIAC (Keshen et al., 2022) e manifestam-se na relação da pessoa com a comida, com o corpo e consigo própria. 

Segundo a American Psychiatric Association (2022), alguns fatores precedem de forma frequente os episódios de ingestão compulsiva. São exemplos a afetividade negativa (tendência para experienciar emoções desagradáveis como a tristeza ou o medo), stress ou eventos de vida difíceis, restrição alimentar e o tédio. A ingestão compulsiva pode, desta forma, assumir a função de estratégia (desadaptativa) para lidar com as adversidades percebidas. Ainda que possa proporcionar alívio ou sensação de fuga momentâneos, a ingestão compulsiva tende a ser seguida por pensamentos negativos e sentimentos de vergonha e culpa após os episódios.

Quando falamos em perturbações do comportamento alimentar, embora a vergonha e o estigma dificultem a procura de ajuda (Ali et al., 2017), um entrave significativo é a preocupação com a perceção social de que estas não são vistas como doenças reais (Wall et al., 2024), o que pode dificultar a partilha das dificuldades e, por conseguinte, o acesso a um diagnóstico e tratamento adequados. Apesar de apresentar uma grande comorbilidade com outras doenças mentais (como perturbações do humor e da ansiedade) (Kowalewska et al., 2024) e médicas (como doenças metabólicas) (Alagha et al., 2025), a PIAC é muitas vezes subdiagnosticada. 

Por se tratar de uma perturbação que engloba fatores psicológicos cuja manifestação apresenta consequências sérias que colocam em risco a saúde física, a abordagem de tratamento mais sugerida é multidisciplinar, priorizando intervenções psicológicas baseadas na evidência, como a Terapia Cognitivo-Comportamental, a par do recurso a plano psicofarmacológico. O acompanhamento médico para monitorização de sintomas e possíveis comorbilidades físicas também é recomendado, bem como o apoio da área da nutrição, de forma a proporcionar uma melhoria sustentada e global na saúde (mental e física como um todo).

Uma peça fundamental para o diagnóstico correto e atempado da PIAC é o conhecimento dos sintomas que podem sinalizar indícios da perturbação. Alguns deles incluem:

·      Comer com frequência grandes quantidades de comida em curtos períodos de tempo;

·      Sensação de falta de controlo durante os episódios de compulsão (por exemplo, dificuldade em parar de comer ou em limitar as quantidades ingeridas);

·      Comer às escondidas;

·      Comer sem ter fome;

·      Comer até atingir um estado de desconforto físico (moderado ou intenso);

·      Sentimentos de vergonha, culpa ou nojo relativamente à própria alimentação e/ou corpo;

·      Ter comportamentos de evitamento perante situações sociais que envolvam ingestão alimentar (convívios, jantares); e

·      Pensamentos negativos sobre si mesmo(a) e a sua aparência física.

Se reconheceu algum destes sinais, é importante que não o ignore ou minimize. A procura de apoio psicológico é o primeiro passo para recuperar ou construir uma relação mais saudável com a comida e consigo mesmo(a). 

 

                                                                                                                        Dra. Sara Morgado

 

Referências Bibliográficas:

Alagha, M., Al-Alam, F., Saroufine, K., Elias, L., Klaimi, M., Nabbout, G., Harb, F., Azar, S., Nahas, N. & Ghadieh, H. E. (2025). Binge eating disorder and metabolic syndrome: Shared mechanisms and clinical implications. Healthcare, 13, 482. https://doi.org/10.3390/healthcare13050482

Ali, K., Farrer, L., Fassnacht, D. B., Gulliver, A., Bauer, S. & Griffiths, K. M. (2017). Perceived barriers and facilitators towards help-seeking for eating disorders: A systematic review. International Journal of Eating Disorders, 50(1), 9-21. https://doi.org/10.1002/eat.22598

American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.).

Keshen, A., Kaplan, A. S., Masson, P., Ivanova, I., Simon, B., Ward, R., Ali, A. I. & Carter, J. C. (2022). Binge eating disorder: Updated overview for primary care practitioners. Canadian Family Physician, 68, 416-421. https://doi.org/10.46747/cfp.6806416

Kowalewska, E., Bzowska, M., Engel, J., Lew-Starowicz, M. (2024). Comorbidity of binge eating disorder and other psychiatric disorders: a systematic review. BMC Psychiatry, 24, 1-50. https://doi.org/10.1186/s12888-024-05943-5

Wall, P. L., Fassnacht, D. B., Fabry, E., O’Shea, A. E., Houlihan, C., Mulgrew, K. & Ali, K. (2024). Understanding stigma in the context of help-seeking for eating disorders. Journal of Eating Disorders, 12, 1-13. https://doi.org/10.1186/s40337-024-01086-w

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