Quando se fala da dificuldade em identificar, nomear ou comunicar os sentimentos, podemos estar a falar de alexitimia. Apesar de não ser uma perturbação clínica, é considerado um traço de personalidade, que se refere à forma como as pessoas fazem o processamento emocional, e cuja presença está associada a várias perturbações clínicas (depressão, ansiedade, alimentares). Isto não significa que a alexitimia seja a causa destas perturbações, ou uma consequência garantida das mesmas.
O que é?
A alexitimia é um traço de personalidade (Luminet & Nielson, 2025), o que significa que é uma característica duradoura e que influencia a forma como pensamos, sentimos e agimos. Isto também significa que é um traço que toda a gente possui, mas em diferentes graus. Como outros traços de personalidade, a alexitimia distribui-se ao longo de um contínuo: algumas pessoas apresentam apenas algumas destas características, enquanto noutras estas dificuldades são mais marcadas e interferem significativamente no bem-estar e nas relações interpessoais.
A alexitimia é normalmente medida através de três componentes (Bagby et al., 1994):
1. A dificuldade na identificação de sentimentos
2. A dificuldade na descrição de sentimentos
3. Pensamento orientado externamente
Isto significa que as pessoas com um traço elevado de alexitimia podem ter dificuldade a reconhecer o que estão a sentir num dado momento, ou distinguir emoções diferentes que partilham características. Por vezes, as emoções são percebidas apenas no corpo, manifestando-se, por exemplo, como um peso no peito, na ausência de uma conexão consciente com o estado emocional (Luminet & Nielson, 2025).
Um traço elevado de alexitimia também pode causar uma dificuldade na descrição das emoções, como se fossem vagas e difíceis de articular. Nos momentos em que é necessário partilhar emoções, como conversas íntimas, este traço pode causar um bloqueio e gerar frustração, tanto na pessoa, como nas que a rodeiam (Luminet & Nielson, 2025).
O pensamento orientado externamente refere-se ao facto de as pessoas com este traço focarem a sua atenção no mundo exterior. Descrevem as situações através de factos, acontecimentos observáveis, sem aceder ao impacto emocional das situações (“Alguém me disse isto, portanto eu fiz aquilo”) (Luminet & Nielson, 2025).
Alguns autores indicam ainda uma quarta componente, que é a dificuldade na imaginação, ou seja, uma dificuldade em criar cenários mentais, imaginar situações hipotéticas, ou sonhar acordado. No entanto, esta componente está intimamente ligada ao pensamento orientado externamente.
De que forma nos afeta?
Além das dificuldades relacionais mencionadas previamente, a alexitimia está também associada ao risco de várias dificuldades somáticas e psicológicas, incluindo perturbações (Luminet & Nielson, 2025).
A forma como a alexitimia afeta cada pessoa pode ser diferente, mas todas elas acabam por demonstrar dificuldades em processar e regular as suas emoções. Esta dificuldade pode traduzir-se numa maior vulnerabilidade ao sofrimento psicológico.
A nível físico, a alexitimia está associada a uma maior vulnerabilidade a sintomas e doenças físicas. Quando existe dificuldade em compreender o significado emocional das sensações corporais, pode haver uma maior atenção aos sintomas físicos e uma tendência para expressar o sofrimento psicológico através de queixas somáticas. (Porcelli & Taylor, 2018).
Como se desenvolve?
A alexitimia não tem uma causa única. O suporte empírico aponta para uma combinação de fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais (Luminet & Nielson, 2025). Traumas, negligência emocional, e invalidação emocional, especialmente se durante a infância, parecem ter um grande papel no desenvolvimento de uma alta alexitimia, já que podem moldar como a pessoa se relaciona com as suas próprias emoções (Ditzer et al., 2023).
O que se pode fazer?
Sendo um traço de personalidade, significa que é possível ser trabalhado. Apesar de serem pervasivos, os traços, e consequentemente a alexitimia, não são imutáveis. Quando a presença deste traço causa dificuldades, o acompanhamento psicológico é uma das principais intervenções. Através da promoção de um espaço seguro e estruturado, é possível desenvolver progressivamente maior consciência emocional, aprender a nomear estados internos e estabelecer ligação entre sensações corporais e a experiência afetiva.
Diversas abordagens psicoterapêuticas têm demonstrado benefícios na promoção da consciência e regulação emocional. Entre elas, algumas intervenções baseadas no treino de competências emocionais, incluindo a terapia dialética comportamental, apresentam resultados promissores na redução dos níveis de alexitimia (Luminet & Nielson, 2025).
Bibliografia
Bagby, R.M., & Parker, J. D. A., & Taylor, G. (1994). The twenty-item Toronto Alexithymia Scale-I. Item selection and cross-validation of the factor structure. Journal of Psychosomatic Research 38. 23-32. 10.1016/0022-3999(94)90005-1.
Ditzer, J., Wong, E. Y., Modi, R. N., Behnke, M., Gross, J. J., & Talmon, A. (2023). Child maltreatment and alexithymia: A meta-analytic review. Psychological bulletin, 149(5-6), 311–329. https://doi.org/10.1037/bul0000391
Luminet O., & Nielson K. A. (2025). Alexithymia: Toward an Experimental, Processual Affective Science with Effective Interventions. Annual Review of Psychology 76, 741-769. https://doi.org/10.1146/annurev-psych-021424-030718
Porcelli, P., & Taylor, G. J. (2018). Alexithymia and physical illness: A psychosomatic approach. In O. Luminet, R. M. Bagby, & G. J. Taylor (Eds.), Alexithymia: Advances in research, theory, and clinical practice (pp. 105–126). Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/9781108241595.009
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