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Erro da previsão afetiva: porque somos tão maus a prever como nos vamos sentir?

Todos fazemos previsões sobre o nosso futuro emocional. Imaginamos a felicidade que sentiremos quando comprarmos uma casa, iniciarmos uma relação ou atingirmos um determinado objetivo. Da mesma forma, antecipamos o sofrimento associado a uma separação, à perda de um familiar ou ao insucesso num projeto importante. Estas previsões influenciam diariamente as nossas decisões, desde as mais simples até às que têm maior impacto na nossa vida. No entanto, a investigação em Psicologia demonstra que somos, de forma sistemática, menos precisos do que imaginamos a prever as nossas futuras emoções. Este fenómeno é conhecido como erro da previsão afetiva (affective forecasting) (Wilson & Gilbert, 2003, 2005).

O conceito de previsão afetiva refere-se à capacidade de antecipar como nos iremos sentir perante acontecimentos futuros. Embora esta capacidade seja essencial para a tomada de decisões, tendemos a cometer um erro consistente denominado viés do impacto (impact bias), isto é, sobrestimamos tanto a intensidade como a duração das emoções que iremos experienciar após acontecimentos positivos ou negativos.

Por exemplo, uma pessoa pode acreditar que conseguir o emprego de sonho lhe proporcionará felicidade intensa durante vários anos ou, pelo contrário, que terminar uma relação significará um sofrimento quase insuportável durante muito tempo. Na realidade, embora estes acontecimentos provoquem emoções genuínas e intensas, a maioria das pessoas adapta-se emocionalmente muito mais rapidamente do que prevê (Gilbert & Wilson, 2009). Este padrão de adaptação tem sido observado em diferentes contextos, incluindo acontecimentos académicos, profissionais, relacionais e de saúde (Wilson & Gilbert, 2003).

Uma das explicações mais estudadas para este fenómeno é o focalismo (focalism). Quando imaginamos um acontecimento futuro, concentramos quase toda a nossa atenção nesse evento específico e negligenciamos todos os restantes acontecimentos que continuarão a ocorrer na nossa vida (Wilson et al., 2000). Assim, ao imaginarmos um divórcio, por exemplo, é comum pensarmos apenas na perda da relação, ignorando que continuarão a existir momentos agradáveis com amigos, sucessos profissionais, novos interesses ou outras experiências positivas que contribuirão para a recuperação emocional. Da mesma forma, ao imaginarmos uma promoção profissional, tendemos a esquecer que continuarão a existir problemas quotidianos, conflitos interpessoais ou desafios pessoais que também influenciarão o nosso bem-estar.

Outro mecanismo importante é aquilo que Gilbert e Wilson (2009) designam por negligência do sistema imunitário psicológico (immune neglect). As pessoas tendem a subestimar a capacidade natural que possuem para lidar com acontecimentos adversos. Estratégias como a reinterpretação da situação, a procura de apoio social, a adaptação gradual às novas circunstâncias ou a reorganização dos objetivos pessoais ajudam a reduzir o impacto emocional das experiências negativas. Contudo, quando antecipamos esses acontecimentos, raramente temos em consideração estes mecanismos automáticos de adaptação psicológica. Como consequência, acreditamos que iremos sofrer muito mais — e durante muito mais tempo — do que realmente acontece.

Curiosamente, o erro da previsão afetiva não ocorre apenas perante acontecimentos negativos. Também tendemos a sobrestimar os benefícios emocionais dos acontecimentos positivos. Ganhar um prémio, comprar um automóvel novo ou adquirir um objeto desejado pode produzir um aumento inicial da felicidade, mas esse efeito costuma diminuir com relativa rapidez devido ao fenómeno da adaptação hedónica (Wilson & Gilbert, 2005). O cérebro habitua-se às novas circunstâncias e aquilo que inicialmente parecia extraordinário passa gradualmente a fazer parte da rotina. Este processo ajuda a explicar porque é que muitas pessoas continuam a procurar constantemente novos objetivos, acreditando que "a próxima conquista" lhes proporcionará uma felicidade duradoura.

As implicações deste fenómeno estendem-se a inúmeras áreas da vida. Nas decisões profissionais, por exemplo, as pessoas podem escolher um emprego exclusivamente com base no salário esperado, sobrestimando o impacto que esse rendimento terá na sua felicidade futura. Nas relações amorosas, podem permanecer em relações insatisfatórias por acreditarem que uma separação seria emocionalmente insuportável. Na área da saúde, do consumo e das finanças, o erro da previsão afetiva influencia igualmente comportamentos, expectativas e decisões importantes (Wilson & Gilbert, 2003, 2005).

Do ponto de vista da psicoeducação, compreender o erro da previsão afetiva pode contribuir para uma tomada de decisão mais equilibrada. Antes de assumir que um determinado acontecimento determinará a nossa felicidade ou infelicidade durante muito tempo, é útil recordar que o cérebro tende a exagerar o impacto emocional dos eventos futuros. Considerar outras dimensões da vida, lembrar experiências anteriores de adaptação e reconhecer a capacidade humana para recuperar das adversidades pode ajudar a reduzir este viés cognitivo.

Importa, ainda, salientar que o erro da previsão afetiva pode contribuir para a ansiedade, uma vez que esta se caracteriza pela antecipação de ameaças futuras. Ao sobrestimar a intensidade e a duração do sofrimento esperado, as pessoas tendem a desenvolver pensamentos catastróficos e comportamentos de evitamento. Assim, quando alguém acredita que não conseguirá lidar com uma entrevista de emprego ou uma apresentação pública, está frequentemente a subestimar a sua capacidade de adaptação. Este padrão é consistente com os modelos cognitivos da ansiedade, que demonstram que os indivíduos ansiosos tendem a sobrestimar o perigo e a subestimar os seus recursos de coping (Beck & Clark, 1997).

Em última análise, a investigação sobre a previsão afetiva transmite uma mensagem simultaneamente científica e esperançosa: embora nem sempre consigamos controlar aquilo que nos acontece, somos geralmente muito melhores a adaptar-nos às mudanças do que imaginamos. A nossa mente prevê um futuro emocional mais extremo do que aquele que, na maioria das vezes, acabamos efetivamente por viver. Ainda assim, se considera que está preso a pensamentos negativos e isso tem impacto nas suas decisões e no seu bem-estar geral, não hesite em procurar ajuda profissional.

Dra. Laura Alho

(www.lauraalho.com)

 

Referências

Beck, A. T., & Clark, D. A. (1997). An information processing model of anxiety: Automatic and strategic processes. Behaviour Research and Therapy, 35(1), 49–58. https://doi.org/10.1016/S0005-7967(96)00069-1

Gilbert, D. T., & Wilson, T. D. (2009). Why the brain talks to itself: Sources of error in emotional prediction. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 364(1521), 1335–1341. https://doi.org/10.1098/rstb.2008.0305

Wilson, T. D., & Gilbert, D. T. (2003). Affective forecasting. In M. P. Zanna (Ed.), Advances in Experimental Social Psychology (Vol. 35, pp. 345–411). Academic Press. https://doi.org/10.1016/S0065-2601(03)01006-2

Wilson, T. D., & Gilbert, D. T. (2005). Affective forecasting: Knowing what to want. Current Directions in Psychological Science, 14(3), 131–134. https://doi.org/10.1111/j.0963-7214.2005.00355.x

Wilson, T. D., Wheatley, T., Meyers, J. M., Gilbert, D. T., & Axsom, D. (2000). Focalism: A source of durability bias in affective forecasting. Journal of Personality and Social Psychology, 78(5), 821–836. https://doi.org/10.1037/0022-3514.78.5.821

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