Há pessoas que têm dificuldade em ficar sem uma explicação. Se alguém demora a responder a uma mensagem, querem perceber porquê. Se uma relação termina, procuram reconstruir todos os acontecimentos, em busca de sinais ignorados ou de comportamentos que a outra pessoa (dis)simulou. Se surge um sintoma, pesquisam até encontrarem uma hipótese. Perante um comportamento inesperado, procuram rapidamente uma causa. E os exemplos poderiam continuam indefinidamente.
À primeira
vista, isto pode parecer apenas curiosidade. Mas, por vezes, há algo mais: uma
dificuldade em tolerar a incerteza.
Por muito que custe aceitar, a incerteza faz parte da vida. Não sabemos como vai correr uma entrevista, o que outra pessoa está a pensar ou quais serão as consequências de uma decisão. Ainda assim, nem todos lidamos com esse desconhecido da mesma forma.
Algumas pessoas
conseguem pensar: “Não tenho informação suficiente. Vou esperar para
perceber”, enquanto outras sentem uma necessidade maior de encontrar
rapidamente uma explicação.
Na psicologia,
esta tendência é estudada através do conceito de intolerância à incerteza,
que se refere, de uma forma geral, à dificuldade em suportar o desconforto
provocado por situações cujo resultado não conseguimos prever ou compreender
totalmente (Carleton, 2016). Isto não significa simplesmente “não gostar de não
saber”. Significa que a ausência de uma resposta pode tornar-se suficientemente
desconfortável para desencadear uma procura persistente de certeza.
Uma explicação pode aliviar — mesmo quando não é verdadeira
Imagine alguém
que envia uma mensagem importante e não obtém resposta. Enquanto não sabe o
verdadeiro motivo, a sua mente cogita várias possibilidades: a outra pessoa
está ocupada, esqueceu-se, não sabe o que responder, está aborrecida ou zangada.
A mente pode rapidamente escolher uma delas: “Está zangada/o comigo”. O
problema é que essa explicação tanto pode estar certa, como não. E o
interessante é que uma explicação pode produzir uma sensação de segurança antes
de produzir conhecimento real.
É aqui que
procurar respostas pode tornar-se um ciclo. A incerteza provoca desconforto à procuramos informação
ou uma explicação à
sentimos algum alívio à
surge uma nova dúvida à
procuramos novamente.
Quando isto
acontece repetidamente, a procura de certeza pode deixar de servir para
resolver problemas e passar a servir sobretudo para diminuir o desconforto
emocional. E a dificuldade está justamente na distinção entre a resolução de
problemas a procura de certeza.
Na resolução de
problemas, procuramos informação suficiente para decidir ou agir: “Quais são as
opções que tenho e o que preciso de saber para escolher?”. Na procura de
certeza, a pergunta tende a multiplicar-se: “E se eu estiver errado? E se
houver outra explicação? E se alguma coisa me estiver a escapar?”
A primeira pode
conduzir a uma decisão. A segunda pode continuar interminavelmente. E, neste
sentido, a investigação associa a intolerância à incerteza a diferentes formas
de sofrimento psicológico, incluindo sintomas de ansiedade, depressão e
perturbação obsessivo-compulsiva. Uma meta-análise encontrou uma associação
consistente entre intolerância à incerteza e sintomas destes problemas,
sugerindo que o fenómeno não é exclusivo de uma única perturbação (Gentes &
Ruscio, 2011).
Então devemos deixar de procurar respostas?
Não.
Procurar
informação é muitas vezes útil e necessário. O problema não está em querer
compreender; está em acreditar que precisamos de compreender tudo para
conseguirmos ficar bem. Podemos perguntar: “Estou a procurar informação
para resolver uma situação ou para eliminar a sensação de dúvida?”
Esta distinção
pode ser importante, pois há situações em que precisamos de mais informação, e
noutras, já temos informação suficiente para agir, mas continuamos a procurar
porque ainda não nos sentimos completamente seguros. E a verdade é que a
certeza absoluta é rara.
Aprender a conviver com a incerteza
Tolerar a
incerteza não significa deixar de pensar, desistir de procurar soluções ou
aceitar tudo passivamente. Significa conseguir reconhecer:
- O que sei: os factos de que disponho.
- O que suponho: as interpretações e hipóteses
que estou a construir.
- O que não sei: aquilo para que ainda não
tenho informação suficiente.
Esta distinção
simples pode impedir que uma hipótese se transforme, sem darmos conta, numa
certeza. Em vez de “Ela não respondeu porque está zangada/a comigo”,
podemos dizer:
“Ela não
respondeu. Não sei porquê. Tenho algumas hipóteses, mas não tenho informação
suficiente para saber”. A segunda frase não elimina o desconforto.
Talvez seja
precisamente essa a competência que precisamos desenvolver: não a capacidade
de encontrar uma resposta para todas as perguntas, mas a capacidade de
permanecer perante algumas perguntas sem resposta.
Ainda assim, para algumas pessoas, a procura de respostas pode tornar-se problemática quando passa a ocupar demasiado tempo, interfere com o quotidiano ou mantém um ciclo de ansiedade e procura de garantias. Pesquisar repetidamente, pedir confirmação constante aos outros, rever mentalmente acontecimentos ou procurar certezas que nunca parecem suficientes são alguns sinais de que a tentativa de reduzir a dúvida pode estar, paradoxalmente, a mantê-la. Quando esta necessidade começa a causar sofrimento ou a limitar a vida, pode ser importante procurar acompanhamento psicológico, para ajudar a compreender o que está a alimentar esta necessidade de certeza e a desenvolver formas mais flexíveis de lidar com a dúvida, a ansiedade e aquilo que não pode ser controlado. Pedir ajuda não significa deixar de procurar respostas; significa aprender a reconhecer quando já não precisamos de mais respostas, mas de maior capacidade para tolerar o que permanece incerto.
E a verdade é
que nem tudo o que é incerto precisa de ser resolvido. Às vezes, “não sei” não
é uma falha. É simplesmente a resposta mais rigorosa que temos no momento (e
precisamos de fazer as pazes com isso).
Referências
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R. N. (2016). Into the unknown: A review and synthesis of contemporary models
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Freeston,
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https://doi.org/10.1016/0191-8869(94)90048-5
Gentes, E. L., & Ruscio, A. M. (2011). A meta-analysis of the relation of intolerance
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S., McEvoy, P. M., Mullan, B. A., & Carleton, R. N. (2016). Intolerance of
uncertainty in emotional disorders: What uncertainties remain? Journal of
Anxiety Disorders, 41, 115–124. https://doi.org/10.1016/j.janxdis.2016.05.001

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