
O ciúme é frequentemente confundido com uma prova de amor. “Se tem ciúmes, é porque gosta”; “quem ama, tem medo de perder”; “se não sente ciúmes, é porque não se importa”. Estas ideias fazem parte do modo como culturalmente aprendemos a interpretar as relações, mas podem tornar difícil distinguir entre uma emoção humana e legítima e comportamentos que procuram controlar, limitar ou vigiar outra pessoa.
O ciúme não acontece apenas nas relações amorosas. Pode surgir em amizades, relações entre irmãos, relações familiares, contextos profissionais ou perante outras pessoas significativas. A própria American Psychological Association (APA, n.d.) define o ciúme como uma emoção que emerge quando alguém percebe (ou receia) que uma terceira pessoa possa ameaçar uma relação valorizada. Assim, embora as relações românticas sejam um contexto particularmente frequente, qualquer vínculo significativo pode despertar esta experiência.
Sentir ciúme não significa, por si só, existir um problema psicológico. O ciúme pode envolver medo, insegurança, tristeza, raiva e pensamentos relacionados com a possibilidade de perder uma relação importante. White (1981) descreveu-o como um fenómeno complexo, constituído por emoções, pensamentos e comportamentos associados à perceção de uma ameaça à autoestima ou à relação. O que fazemos com essa emoção é, por isso, tão importante como a própria emoção.
É aqui que se torna fundamental distinguir sentir ciúme de controlar.
Pode sentir-se inseguro/a quando o seu parceiro fala com outra pessoa e dizer: “Esta situação despertou alguma insegurança em mim e gostava de falar sobre isso.” Outra coisa é concluir: “Por isso, não podes voltar a falar com essa pessoa.”
Pode sentir medo de perder uma amizade e falar sobre o que está a sentir; outra coisa é exigir que o amigo deixe de contactar determinadas pessoas. A emoção pode ser compreensível, mas não transforma automaticamente o comportamento que dela resulta em algo adequado.
O controlo pode aparecer de formas muito subtis: querer saber constantemente onde o outro está, exigir respostas imediatas, pedir provas ou fotografias, questionar repetidamente com quem esteve, controlar amizades, roupa ou redes sociais, exigir acesso ao telemóvel ou às palavras-passe, interpretar qualquer contacto como ameaça ou fazer o outro sentir-se culpado por ter vida própria, entre outros. Quando estes comportamentos se tornam frequentes, intensos e limitadores, o problema já não é apenas “ter ciúmes”. Está em causa a autonomia da outra pessoa.
Por vezes, o controlo é apresentado como cuidado: “Faço isto porque me preocupo contigo”; “Só quero proteger a nossa relação”; “Se não tens nada a esconder, porque não me mostras o telemóvel?”. Mas preocupação e controlo não são sinónimos. Cuidar implica considerar o bem-estar do outro; controlar implica procurar determinar o comportamento do outro. A privacidade também não é sinónimo de segredo: uma pessoa pode não ter nada a esconder e, ainda assim, ter direito a manter determinadas dimensões da sua vida privadas.
A investigação mostra que determinados comportamentos utilizados para diminuir o ciúme podem acabar por mantê-lo. A verificação, o interrogatório ou a procura constante de garantias podem produzir alívio momentâneo, mas a dúvida tende a regressar e exigir nova confirmação. Cria-se, assim, um ciclo de insegurança → verificação → alívio temporário → nova dúvida → nova verificação. Em algumas formas mais intensas de ciúme, este padrão pode assumir características obsessivas e interferir significativamente no funcionamento da pessoa e das suas relações (e.g., Ecker, 2012; Costa et al., 2015).
Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes perante o ciúme seja: “Estou a tentar compreender aquilo que sinto ou estou a tentar controlar aquilo que o outro faz para deixar de sentir?”
Esta distinção é particularmente importante porque o medo de perder alguém pode ser genuíno. A insegurança pode ser genuína. O sofrimento pode ser intenso. Mas uma emoção legítima não confere automaticamente o direito de restringir a liberdade de outra pessoa. Amar alguém não significa possuir essa pessoa, nem abdicar da própria individualidade para provar compromisso.
Quanto procurar ajuda?
É importante reconhecer quando o ciúme começa a causar sofrimento suficiente para justificar apoio psicológico. Não é necessário esperar que exista um diagnóstico ou uma situação extrema. Pode ser útil procurar ajuda quando:
- Os pensamentos de ciúme se tornam persistentes e difíceis de afastar;
- Existe uma necessidade crescente de verificar, perguntar ou procurar garantias;
- A pessoa sente ansiedade, raiva ou angústia intensa perante situações relativamente banais;
- Passa grande parte do tempo a pensar na possibilidade de perder alguém;
- O ciúme interfere no sono, trabalho, estudos, vida social ou outras relações;
- Os comportamentos associados ao ciúme começam a provocar conflitos repetidos e deterioração dos vínculos. Estudos sobre ciúme patológico identificam, entre outros aspetos, níveis elevados de ansiedade, impulsividade e dificuldades de ajustamento social, embora estes dados não permitam transformar automaticamente o ciúme numa perturbação psicológica (Costa et al., 2015).
Também merece atenção quando a pessoa reconhece que as suas suspeitas não têm uma base factual consistente, mas sente uma necessidade irresistível de investigar, confirmar ou controlar. A literatura distingue precisamente situações em que existe uma ameaça concreta das formas de ciúme suspeitoso, nas quais a pessoa teme perder uma relação apesar de não existir evidência objetiva de que o parceiro tenha feito algo que justifique essa preocupação (e.g., Rydell & Bringle, 2007).
Do outro lado, quem vive sob controlo também pode beneficiar de apoio psicológico, sobretudo quando começa a alterar sistematicamente o seu comportamento para evitar discussões, acusações ou reações do outro. Deixar de contactar amigos, mudar a forma de vestir, esconder atividades ou sentir necessidade permanente de justificar onde se esteve são sinais que merecem ser levados a sério. A APA (2023) chama particularmente a atenção para padrões de ciúme, possessividade e raiva descontrolada nas relações e recomenda procurar ajuda quando estes padrões estão presentes.
O objetivo do acompanhamento psicológico não é ensinar uma pessoa a “não sentir ciúmes”. As emoções não desaparecem simplesmente porque decidimos que não as queremos sentir. O trabalho passa antes por compreender o que está por baixo do ciúme, distinguir factos de interpretações, desenvolver formas mais eficazes de lidar com a incerteza, fortalecer a autoestima e aprender a comunicar necessidades sem transformar a ansiedade em vigilância ou controlo. Em alguns casos, é também necessário avaliar se existem outras dificuldades psicológicas associadas e qual a intervenção mais adequada.
No fundo, sentir ciúme não é o problema; transformar o ciúme numa autorização para controlar pode ser. Uma relação segura não é necessariamente aquela em que nunca existe insegurança. É aquela em que as pessoas conseguem reconhecer emoções difíceis sem transformar essas emoções em regras para o outro. Porque o amor pode envolver proximidade, compromisso, vulnerabilidade e medo de perder. Mas não precisa da vigilância para provar que existe, nem da liberdade do outro como preço da segurança.
Dra. Laura Alho | www.lauraalho.com
Referências
American Psychological Association. (n.d.). Jealousy. In APA dictionary of psychology. Retrieved September 16, 2026, from https://dictionary.apa.org/jealousy
American Psychological Association. (2023). Violence in relationships: Love shouldn’t hurt. https://www.apa.org/topics/physical-abuse-violence/relationships-dating-love-sex
Costa, A. L. C., Sophia, E. C., Sanches, C., Tavares, H., & Zilberman, M. L. (2015). Pathological jealousy: Romantic relationship characteristics, emotional and personality aspects, and social adjustment. Journal of Affective Disorders, 174, 38–44. https://doi.org/10.1016/j.jad.2014.11.017
Ecker, W. (2012). Non-delusional pathological jealousy as an obsessive-compulsive spectrum disorder: Cognitive-behavioural conceptualization and some treatment suggestions. Journal of Obsessive-Compulsive and Related Disorders, 1(3), 203–210. https://doi.org/10.1016/j.jocrd.2012.04.003
Hill, R., & Davis, P. (2000). ‘Platonic jealousy’: A conceptualization and review of the literature on non-romantic pathological jealousy. British Journal of Medical Psychology, 73(4), 505–517. https://doi.org/10.1348/000711200160697
Rydell, R. J., & Bringle, R. G. (2007). Differentiating reactive and suspicious jealousy. Social Behavior and Personality: An International Journal, 35(8), 1099–1114. https://doi.org/10.2224/sbp.2007.35.8.1099
White, G. L. (1981). Some correlates of romantic jealousy. Journal of Personality, 49(2), 129–145. https://doi.org/10.1111/j.1467-6494.1981.tb00733.x
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