A perturbação estado-limite da personalidade, ou mais comumente conhecida por perturbação borderline, é caracterizada por instabilidade nas relações interpessoais, autoimagem e afeto (e.g., Leichsenring et al., 2023; Ordem dos Psicólogos Portugueses, n.d.). Além disso, as pessoas com esta perturbação também manifestam ansiedade, irritabilidade, e dificuldades com comportamentos impulsivos (e.g., Leichsenring et al., 2023).
A idade a partir da qual a perturbação estado-limite da personalidade é identificada varia, mas os sintomas manifestam-se normalmente entre a adolescência e o início da idade adulta (e.g., American Psychiatric Association, 2022).
Além dos sintomas já mencionados, a perturbação estado-limite da personalidade está associada a outros riscos, especialmente sociais e vocacionais, como dificuldades em manter emprego, taxas altas de comorbilidade (isto é, a presença de outras perturbações ou doenças somáticas), e uma maior recorrência a serviços médicos, com ou sem internamento (e.g., Bohus et al., 2021). Entre as perturbações de personalidade, é a perturbação com maior associação ao risco de suicídio, e adicionalmente, a mortalidade desta perturbação é também mais alta pela sua alta comorbilidade com doenças somáticas (cardiorrespiratórias, infeciosas, entre outras) (e.g., Leichsenring et al., 2023).
Ainda que nem toda a gente com este diagnóstico tenha um historial de experiências adversas na infância, abuso físico, sexual e/ou emocional, bem como negligência, estas experiências são mais comuns entre as pessoas com perturbação estado-limite da personalidade (e.g., Porter et al., 2020). Apesar de não ter sido descoberto um modelo exato do desenvolvimento desta perturbação, os fatores ambientais descritos, em conjunto com fatores genéticos (hereditariedade) e neurobiológicos (alterações na estrutura ou funcionamento do cérebro) parecem formar uma relação complexa que aumenta o risco do desenvolvimento desta perturbação (e.g., Bozzatello et al., 2021).
De acordo com a American Psychiatric Association (2022), a perturbação estado-limite da personalidade pode manifestar-se em vários sintomas, alguns exemplos são:
· Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizados pela alteração rápida entre idealização e desvalorização;
· Impulsividade em pelo menos duas áreas autodestrutivas (gastos/compras, sexo, abuso de substâncias, condução irresponsável, compulsão alimentar)
· Comportamentos, gestos ou ameaças recorrentes de suicídio ou automutilação
· Instabilidade afetiva (irritabilidade ou ansiedade intensas que podem durar horas, mas raramente mais de alguns dias)
A perturbação estado-limite da personalidade é uma perturbação que é bastante estigmatizada, mesmo dentro de espaços ou contextos de saúde mental, como na literatura científica que, por vezes, descreve as pessoas com esta perturbação como manipuladoras, dramáticas ou que procuram atenção, o que pode acabar por atribuir uma componente de intencionalidade nos seus comportamentos (e.g., Klein et al., 2022; Masland et al., 2023). Na verdade, estes comportamentos parecem surgir, na maioria das vezes, como tentativas de regular uma dor emocional intensa e desregulada (e.g., Masland et al., 2023). Ver estes comportamentos como sofrimento e não como um ataque pessoal ou tentativa de controlo, não elimina o impacto que têm nas pessoas que os testemunham, mas pode levar a respostas mais compassivas, e consequentemente, mais eficazes (e.g., Masland et al., 2023).
A intervenção de eleição para a perturbação estado-limite da personalidade costuma ser a Terapia Comportamental Dialética (DBT) (e.g., Setkowski et al., 2023), ainda que nem sempre a evidência suporte que esta abordagem seja superior a outras abordagens psicoterapêuticas (e.g., Crotty et al., 2024). A Terapia Focada em Esquemas, a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), a Terapia Cognitivo-comportamental (TCC), entre outras, parecem melhorar a gravidade e os sintomas desta perturbação de forma comparável ao tratamento habitual, sem que nenhuma se destaque de forma consistente (e.g., Crotty et al., 2024).
Embora não seja certo se a intervenção especializada para esta perturbação seja, de facto, superior, o que é claro é que a psicoterapia é o tratamento de primeira linha para auxiliar as pessoas que enfrentam dificuldades semelhantes ou resultantes da perturbação estado-limite da personalidade (e.g., Crotty et al., 2024).
Para as pessoas que se possam identificar com as dificuldades descritas, ou para familiares ou pessoas próximas de alguém com esta perturbação, a situação não necessita de ser vivida sem apoio. Falar com um profissional, como o/a médico/a de família ou um/a psicólogo/a pode ser um passo importante. As pessoas próximas e familiares podem beneficiar do apoio para compreenderem e apoiarem melhor quem amam enquanto cuidam do seu próprio bem-estar. Se estiver em crise ou tiver pensamentos de suicídio, deve contactar a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio (1411, 24 horas por dia) ou o Serviço de Aconselhamento Psicológico do SNS 24 (808 24 24 24). Existem também linhas de apoio emocional e prevenção do suicídio, como a SOS Voz Amiga (213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660), que garantem o anonimato.
Bibliografia
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.). American Psychiatric Association Publishing.
Bohus, M., Stoffers-Winterling, J., Sharp, C., Krause-Utz, A., Schmahl, C., & Lieb, K. (2021). Borderline personality disorder. Lancet (London, England), 398(10310), 1528–1540. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)00476-1
Bozzatello, P., Rocca, P., Baldassarri, L., Bosia, M., & Bellino, S. (2021). The Role of Trauma in Early Onset Borderline Personality Disorder: A Biopsychosocial Perspective. Frontiers in Psychiatry, 12, 721361. https://doi.org/10.3389/FPSYT.2021.721361
Crotty, K., Viswanathan, M., Kennedy, S., Edlund, M. J., Ali, R., Siddiqui, M., Wines, R., Ratajczak, P., & Gartlehner, G. (2024). Psychotherapies for the treatment of borderline personality disorder: A systematic review. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 92(5), 275–295. https://doi.org/10.1037/ccp0000833
Klein, P., Fairweather, A. K., & Lawn, S. (2022). Structural stigma and its impact on healthcare for borderline personality disorder: a scoping review. International journal of mental health systems, 16(1), 48. https://doi.org/10.1186/s13033-022-00558-3
Leichsenring, F., Heim, N., Leweke, F., Spitzer, C., Steinert, C., & Kernberg, O. F. (2023). Borderline Personality Disorder. JAMA, 329(8), 670. https://doi.org/10.1001/jama.2023.0589
Masland, S. R., Victor, S. E., Peters, J. R., Fitzpatrick, S., Dixon-Gordon, K. L., Bettis, A. H., Navarre, K. M., & Rizvi, S. L. (2023). Destigmatizing Borderline Personality Disorder: A Call to Action for Psychological Science. Perspectives on Psychological Science, 18(2), 445-460. https://doi.org/10.1177/17456916221100464
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (n.d.) Perturbação estado-limite da personalidade. Acedido em setembro de 2026, a partir de: https://eusinto.me/perturbacao-estado-limite-da-personalidade/
Porter, C., Palmier-Claus, J., Branitsky, A., Mansell, W., Warwick, H., & Varese, F. (2020). Childhood adversity and borderline personality disorder: a meta-analysis. Acta Psychiatrica Scandinavica, 141(1), 6–20. https://doi.org/10.1111/acps.13118
Setkowski, K., Palantza, C., van Ballegooijen, W., Gilissen, R., Oud, M., Cristea, I. A., Noma, H., Furukawa, T. A., Arntz, A., van Balkom, A. J. L. M., & Cuijpers, P. (2023). Which psychotherapy is most effective and acceptable in the treatment of adults with a (sub)clinical borderline personality disorder? A systematic review and network meta-analysis. Psychological Medicine, 53(8), 3261–3280. https://doi.org/10.1017/S0033291723000685
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